sábado, 23 de abril de 2011

HISTÓRIA TRISTE

daqui desta pontinha da blogsfera, sem arte e graça nenhuma, acho que o casamento do orgulho com a ignorância terminou por enfeiar o cenário do "Centenário da Assembleia de Deus". Um acontecimento que tinha tudo para significar um momento histórico-religioso inigualável. No qual se comemora a memória de Daniel Berg e Gunnar Vilgren, dois imigrantes e operários suecos flagelados pelo êxodo rural em sua pátria que embarcaram no sonho americano e descobriram nesta margem do Atlântico o preconceito contra a igreja dos pobres e o conflito racial entre membros da comunidade batista dos Estados Únidos.

um dia, num sonho, Daniel compreende que teria uma missão especial numa terra desconhecida para ele, chamada "Pará"... Ao despertar procura no mapamúndi e logo acha Pará às portas do vasto e misterioso rio Amazonas. Sem mais, ele procura o compatriota e irmão de fé Gunnar. Fossem eles simples aventureiros como tantos que pisaram este solo fértil em imaginações, a gente diria que eles estavam possuídos pelo espírito pagão do Bezerro de Ouro em busca de fama e tesouros.

mas não, enquanto o hoje florescente reino da Suécia fazia a passagem da economia agrária para a revolução industrial no tempo das vacas magras; o Pará velho de guerra saído da tragédia da Cabanagem, com as suas lindas florestas brilhava sob o sol do equador produzindo látex da belle époque da Borracha. Nossos operários do Espírito Santo chegam a Paris amazônica armados unicamente de fé em Deus e de ferramentas da importante profissão de soldador, justamente quando o mercado mais pedia barcos de ferro, caldeiras e máquinas para extrair de seringais distantes seringa  inventada algum dia no Alto Amazonas, pelos índios Omaguas, levada pelo biopirata Charles Marie La Condamine e industrializada por Charles Goodyear, sem jamais pagar um tostão de patente aos índios.

recebidos de braços abertos na pequena comunidade batista da época, tão logo os suecos americanizados aprenderam a língua do país e soltaram o verbo que os impulsionava, a fraternidade dos primeiros dias se converteu em gelo quando não em aberta hostilidade. O cisma evangélico já se fizera sentir na pátria de adoção: o pentecostalismo recém-chegado iria travar uma verdadeira batalha não só com os reacionários católicos de costume, mas também com as confissões protestantes históricas.

dias duros de prova aos obreiros suecos no solo parauara marcado por sangue, suor e lágrimas. Um irmão de nome Pantoja, vindo do interior, não deixou os missionários estranhos falar só. E logo, na Cidade Velha, rua Siqueira Mendes surgiu a primeira igreja da Assembleia de Deus na Amazônia, com uma profetiza extraordinária que atraiu o povo carente de milagres e cura. Esta não é mesmo uma história digna de respeito? 

Que diabo, então, esbandalhou a festa do Centenário atiçando a vaidade de pastores infiéis aos fundadores e seduzindo edis politicamente analfabetos com falsas promessas de votos de cabresto? Cruz credo!!!

No Blog Holofote Virtual de Luciana Medeiros


Avenida Dalcídio Jurandir
Há dois anos  coordenadores da Assembléia de Deus vem tentando obter homenagem estampada em via pública pelo centário da instituição a ser  festejado no  mês de junho. Como se pode ler neste link aqui, eles tinham duas alternativas a propor ao poder público.  Num atentado à memória da cultura paraense, venceu a pior.

A primeira ideia foi propor a abertura de uma "rua passando por dentro do terreno do Templo Central, ligando a avenida Governador José Malcher à rua João Balbi, no centro de Belém". A segunda era iniciar "articulação para a mudança do nome da avenida Dalcídio Jurandir, às proximidades da avenida Independência, para avenida Centenário". A segunda opção pelo visto foi a mais fácil de ser conquistada.
No dia 08 de abril, o escritor e jornalista Alfredo Garcia deu o alerta em seu blog Página Nua. Os vereadores, “em acordo conchavado”, decidiram trocar o nome da Avenida Dalcídio Jurandir (extensão da Av. Independência que vai da Rodovia Augusto Montenegro até a Av. Júlio Cesar), que homenageia o grande romancista brasileiro nascido em Ponta de Pedras, no Marajó, para Avenida Centenário da Assembleia de Deus.

Painel sua homenagem no Fórum de Letras da Unama, em 2010
“Justifica-se, naturalmente, a decisão dos senhores vereadores por dois fatos: a) Total desconhecimento de quem foi Dalcídio Jurandir, de sua importância para a história cultural e política do Pará; b) Desejo de agradar aos nobres integrantes da Assembleia de Deus, no que vai um nada louvável toque eleitoreiro na votação”. O texto completo você pode ler no blog do escrito, acesse aqui.

No dia 20 de abril, o poeta e contista Paulo Nunes, graduado em Letras (UFPA), mestre em Letras: Lingüística e Teoria Literária (UFPA) e doutor em Letras (PUC-MG), que atua nos temas:  Dalcídio  Jurandir, ciclo do extremo norte, Amazônia, aquonarrativa e literatura brasileira de expressão amazônica e literaturas africanas de língua portuguesa, também se manifestou sobre o assunto e comentou, em carta publicada no Jornal O Liberal (Caderno Cidades, seção Jornal do Leitor, pg. 8), a “decisão” parlamentar.

Vale ressaltar aqui outros atos desatentos para com a memória do escritor. No mês de março, pelo twitter, o cineasta Darcel Andrade, que tem trabalhos na região marajoara, informou que a casa que fora habitada pelo escritor em Cachoeira do Arari, sendo inclusive um ponto turístico marcante da cidade, ao lado do Museu do Marajó, em total estado de abandono começou a ruir.

Casa que pertenceu ao escritor, em Cachoeira do Arari
E assim foi. A parte da frente já está no chão e falta muito pouco até que ela desapareça para sempre. Em 2009, quando o escritor foi patrono da Feira Panamazônica do Livro, o governo do estado tinha iniciado um processo, via Secretaria de Cultura do Estado, de desapropriação da casa para ser transformada em Espaço – Museu Dalcídio Jurandir, mas por questão de valores  e outros fatores discutidos com a família do escritor, nada mais foi feito ou resolvido.

Pela importancia de sua obra, o seu nome dado à avenida, é mais que merecida. O centenário da Assembleia de Deus, que será comemorado em junho, não perderá brilho algum caso seja revista esta atutude, já que os coordenadores da festa deste centenário tinham outra alternativa para obter homenagem pública. Leia abaixo o artigo de Paulo Nunes, publicado no jornal O Liberal.

Vereadores e a triste Belém

O escritor
Dizem por aí: "cada povo tem o governo que merece". Não quero entrar no mérito desta questão. Mas desejo, cidadão que cumpre com suas obrigações (que não são poucas), protestar contra os desmandos dessa nossa terra empoleirada na pobreza, lixo, escuridão e miséria. E os políticos têm responsabilidade grande nesse processo. Eles se valem da anestesia geral e saltitam seus projetinhos pequenos e que nos deixam com os piores índices de desenvolvimento humano do país.

O despreparo e a escassez de bons propósitos fazem com que a gente ouça por aí que os políticos não pensam no bem comum, mas em seus objetivos mesquinhos, que esbarram na falta de ética e na ganância. Não exageremos. Há exceções. Mas há um problema tão sério quanto os que correm em boca pequena: a falta de compromisso de alguns políticos com a memória e a cultura do povo, este que teve como ancestrais os cabanos. Que barganhas levam os legis]ladores a leis tão estapafúrdias, a projetos estúrdios?

Os senhores vereadores de Belém - ó, quão mísera cidade! - acabam de decretar suas anorexias mentais. Em nome da demagogia, os representantes do povo alvejaram votos de numerosa fatia dos evangélicos (a Assembleia de Deus, diga-se, merece todas as homenagens pelo seu centenário, graças ao culto a Deus e ao bem que promove à humanidade) ao trocar o nome da avenida "Dalcídio Jurandir", um dos mais importantes escritores da América Latina, por "Centenário da Assembleia de Deus".

Livros escritos por Dalcídio
Queriam homenagear nossos irmãos cristãos? Por que não o fazem com criação de uma biblioteca pública, ecumênica e multirreligiosa, que seria plantada, por exemplo, no centro da esquecida Terra Firme? Já pensaram os senhores edis em trocar marginalidade e violência por "livros - tradicionais e eletrônicos - à mancheia" e investimentos sociais? E na entrada todos leríamos "Biblioteca Ecumênica Centenário da Assembleia de Deus", placa com os nomes dos autores e executores do projeto?

Dalcídio Jurandir, que era comunista convicto e ateu, era, entretanto, um dos mais respeitadores aos cultos religiosos, de qualquer cor e motivação. Se a religião é para o bem, pois que se faca dela algo que desaliene e ao mesmo tempo exalte a dignidade humana, pensava o escritor, conforme me disse, certa vez, seu filho, José Roberto Pereira.

Paulo Nunes
Belém-Pará

Um comentário:

  1. Meu pai trabalhou para Samuel Nelson que era filho de Nels Nelson um dos patriarcas desta igreja que firmou-se em Belém e ganhou o mundo.

    Samuel levou meu pai para a maçonaria e este faleceu há 7 anos atrás, me deixando algumas estórias sobre a família Nelson e seu legado no Pará e no Brasil, por onde disseminou a doutrina pentecostal.

    A questão levantada nos traz a urgente e necessária medida cautelar de exigirmos que Dalcídio Jurandir seja o nome de outra importante obra, ou por se construir ou já construída em Belém, haja vista, que o domínio desta facção do cristianismo implacou a via que planejou e insistir na critica sem apontar para medidas alternativas pode abrir um paradoxal e desnecessário esforço em vão ou se for mais adiante um pseudo-conflito com os religiosos e sabemos o quanto são fundamentalistas.

    Mas se for convencido de que a melhor estratégia é ficar na resistência, eu topo, afinal, a vida sem luta não é vida e a história de resistência de Dalcídio Jurandir nos faz ter isso claro e sem medo, posto que lutou contra o fascismo, o capitalismo e a ditadura com menos recursos e condições que nós, hoje em dia, e fez muito mais do que fundar uma representadora de dogmas: difundiu a emancipação nas pessoas que o leêm.

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