terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Saga dos casais na invenção da Amazônia e a herança açoriana no Salgado..

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Notas avulsas para um projeto comunitário:
ECOMUSEU MEMORIAL MESTRE LUCINDO.



Lucindo Rebelo da Costa (Marapanim, 1908 - 1988) ou simplesmente Mestre Lucindo, tornou-se ícone da Criaturada grande (populações tradicionais) do Salgado. Uma microrregião do Nordeste Paraense das mais representativas da cultura popular costeira da Amazônia atlântica, formada pela mestiçagem da cultura indígena Tupinambá local com povoadores portugueses de origem açoriana principalmente e povos africanos escravizados durante a colonização do Maranhão e Grão-Pará, entre os séculos XVII e XVIII. 

A mesorregião Nordeste Paraense é duplamente nordestina: primeiro devido à demografia desde a ocupação pré-colonial Tupinambá em busca da mítica Yby marãey (terra sem mal) vinda da distante Bolívia e Paraguai pelo Peabiru para o litoral do Brasil, antes da virada da Paraíba para o norte... Com a conquista do Maranhão e colonização portuguesa, vieram os casais (famílias das ilhas do Atlântico) e chegaram da África nossos antepassados negros na horrorosa condição de escravos; até começar a mestiçagem geral e a migração do Nordeste assolado pelas grandes secas... Enfim, na divisão territorial da velha Tapuya tetama (terra Tapuia) conhecida como Grão-Pará; o que já estava fadado a ser nordestino pela criaturada migrante terminou ficando Nordeste por força da cartografia oficial.

Mestre Lucindo e seus sumanos pescadores deram grande expressão cultural e identidade territorial ao Salgado, sobretudo ao cantar a terra e gente no carimbó praiano, marca maior do ritmo tropical do Pará na vida comunitária de pescadores e mariscadores com genuína arte popular. Este personagem emblemático veio a ser justamente homenageado com seu nome posto à "Reserva Extrativista Marinha Mestre Lucindo", no município de Marapanim, uma das 12 unidades federais extrativistas no Estado do Pará, que ora se notabilizam pelo crescimento de novos manguezais em contraste com a devastação deste tipo de ecossistema costeiro no restante do país e do mundo. Claro está que a rede de reservas extrativistas marinhas encontrou seu poeta e cantor favorito na pessoa imortal de Mestre Lucindo. O mundo precisa saber...

Florestas de mangue realizam mais sequestro de carbono da atmosfera do que quaisquer outras coberturas vegetais do planeta. E a rede de reservas extrativistas marinhas constitui experiência exitosa da política brasileira de meio ambiente, que chama atenção da comunidade internacional. A Resex Marinha Mestre Lucindo foi resposta correta da União à demanda da comunidade de Marapanim onde natureza, trabalho comunitário e cultura popular somam-se de maneira exemplar. 

Deste modo, a Reserva Extrativista Marinha Mestre Lucindo, apresenta enorme potencial para realizar interface ecoturística com o Monumento Natural Dunas e Lagos de Algodoal e a Área de Proteção Ambiental Algodoal-Maiandeua, unidades estaduais de conservação mais conhecidas nacional e internacionalmente a par das resex mar vizinhas, Mãe Grande de Curuçá, Cuinarana e Maracanã partes do significativo avanço do processo de desenvolvimento socioambiental sustentável do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) na Amazônia.

Desta maneira, o ecoturismo de base na comunidade no Salgado e o consumo responsável de produtos extrativistas marinhos em economia solidária, poderão oferecer padrão de referência para mudança de paradigma socioambiental em vista da Agenda 2030 da ONU dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Sabemos das dificuldades para realizar a transversalidade do meio ambiente nas relações federativas (União, Estados, Municípios e sociedade civil organizada), mesmo entre instituições públicas federais ou estaduais atuando na mesma região o diálogo e a cooperação não tem a necessária fluência. Algumas vezes, vozes isoladas sugerem oportunidade para criar mosaico de unidades de conservação da Amazônia Marajoara, delta-estuário do Amazonas e Pará; inclusive finalização do preparo pelo governo estadual da candidatura da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia, no programa Homem e Biosfera (MaB), da UNESCO. Conjunto de medidas macro-estruturantes para realização dos ODS no bioma fluviomarinho amazônico, que, de maneira informal, aqui chamamos a nossa universidade da maré voltada à inclusão social efetiva e educação ambiental da Criaturada grande de Dalcídio no bojo do grande discurso das Mudanças Climáticas e dos Direitos Humanos.

"Por que foi que no mar não tem peixe boi".

Amigos e membros efetivos da Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Mestre Lucindo (AUREMLUC) - parte essencial da identidade e territorialidade da supracitada reserva extrativista -, juntos a suas congêneres no Salgado, tem oportunidade de trazer na bagagem um acervo ecocultural ímpar que pode agregar ao processo de desenvolvimento socioambiental sustentável. Cujo protagonismo se manifesta na atividade educativa da comunidade mediante criação de ecomuseu destinado a manter viva a memória de Mestre Lucindo, sua vida e sua obra para fomentar atividades sociais, culturais e artísticas integradas junto às comunidades. 

Povo sem passado é povo sem futuro. Por isto, a inclusão social carece ser acompanhada de reavivamento histórico e antropológico para rememorar com crianças, jovens e idosos feitos notáveis de antigas populações do lugar, descendentes da babel aruaca e caribe, detentoras de conhecimento imemorial de, pelo menos, 5 mil anos de íntima convivência das terras baixas da América do Sul e ilhas do Caribe, além das aportações europeias e africanas através do Atlântico.

Entretanto a Criaturada só ultimamente começa a receber do estado nacional e da sociedade a atenção que há muito tempo merece. Basta dizer que, sem peixes e pescadores primitivos, não existiriam Amazônia misteriosa e Brasil gigante... 

A célebre civilização marajoara, cantada em prosa e versos apesar do desleixo oficial; jamais viria a lume sem prodigiosas piracemas que se renovam a cada ano e a humildade da pesca de gapuia primitiva para matar a fome da pobreza humana, há milhares de anos, em seu rico e peculiar ecossistema regido pelas chuvas da estação do "inverno" amazônico (cf. Denise Schaan, Cultura Marajoara). 

O poeta Luís de Camões não poderia nunca cantar os Lusíadas e o Infante Dom Henrique não teria nautas para os descobrimentos do caminho das Índias se, muito antes de talhar a primeira caravela, homens rudes e temerários se lançassem ao mar em busca de comida na pesca arriscada ao bacalhau... 

Entretanto, a primeira colônia de pesca no Brasil data da época colonial portuguesa e somente com a Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé, em Santa Catarina, a Criaturada grande experimentou novo impulso renovador das suas milenares energias. E já se deveria saber que os oceanos estão virando desertos de peixes e outros animais marinhos, afetados pela pesca predatória e a poluição das águas. Mas, os mangues são a placenta da mãe Terra, berçários de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos, ninhais de aves aquáticas. Manancial de vida, inclusive no sustento de muitas vidas humanas.

Forte coincidência, o Estado de Santa Catarina filho do casamento da corrente marítima brasileira com a antiga migração de pescadores açorianos; se acha no início da história das Colônias de Pescadores Artesanais e também das Reservas Extrativistas Marinhas, as duas faces da mesma moeda levando a Cidadania ao encontro da criaturada grande: o que equivale a proclamar a segunda independência do Brasil. 

Assim o sacrifício da vida de Chico Mendes, na Floresta Amazônica devastada pelo latifúndio e as multinacionais exploradoras de matérias primas; além de congregar seringueiros e outros povos da floresta, acabou por levantar pescadores artesanais, caiçaras, caranguejeiros, mariscadores da beira do mar em luta por seus direitos frente a exploradores poderosos...

"Hoje as colônias de pescadores artesanais estão equiparadas a sindicatos rurais, tornando-se assim legítimas representantes da classe. Após muitos anos de espera, o Governo Federal sancionou em 3/5/2008 o decreto lei no 11.699, que transformou as colônias de pescadores em sindicatos rurais, conforme parágrafo único do artigo 8o da Constituição Federal. A decisão fortaleceu essas entidades de forma legal, dando-lhes maior representatividade, e permite também a cobrança de contribuição sindical, equiparando-as aos sindicatos de outras categorias profissionais. Esse trabalho é o reconhecimento, ainda que tardio, dessa profissão tão antiga. 

A história das colônias de pescadores no Brasil teve início no século 19. A primeira delas, chamada de Nova Ericeia, foi fundada em 1818 na Enseada das Garoupas no Estado de Santa Catarina, administrada pela Marinha Portuguesa. Na época o Brasil era Reino Unido de Portugal, sob o comando de D. João VI. Cerca de cem anos após a fundação da primeira colônia, o cruzador José Bonifácio, sob o comando do oficial da Marinha de Guerra, comandante Frederico Villar, executou a primeira ação efetiva de gestão pesqueira no país. De 1919 a 1924, o cruzador da Marinha realizou viagem pela costa do Brasil e em cada local que aportava a tripulação, composta inclusive de médicos e dentistas, atendia a população litorânea e promovia registro e criação de Colônias de Pescadores com a finalidade de representar e defender direitos e interesses de seus associados. 

A missão do comandante Villar era a implantação do Programa Nacional de Pesca e Saneamento do Litoral que tinha as seguintes preocupações básicas: acabar com as doenças que afligiam a população caiçara, o analfabetismo, a formação dos quadros do pessoal da Marinha de Guerra, a eliminação da exploração dos pescadores em decorrência da ação intermediária e servir de ponto de apoio para as ações do governo junto aos pescadores. Fruto da missão do comandante Frederico Villar hoje existem mais de mil colônias de pescadores no Brasil, 27 Federações Estaduais e uma Confederação Nacional de Pescadores e Aquicultores, representando cerca de 1 milhão de pescadores artesanais. As suas atividades foram regulamentadas através das Portarias no 471 de 26/12/1973 e Portaria no 323 de 3/6/1975, ambas do Ministério da Agricultura e Abastecimento. Hoje, a Federação dos Pescadores do Estado de São Paulo –FEPESP abrange 22 colônias de pescadores, 12 no litoral e 10 em águas continentais, algumas com mais de 90 anos de existência, representando mais de 30 mil pescadores artesanais. É de sua competência representar e defender direitos e interesses dos pescadores artesanais, assim como requerer licenças de pesca, registros de embarcações, aposentadorias rurais, auxílio-natalidade, entre outras atribuições. 

Christina Amorim 
Martim-Pescador /Editora " 


Urge superar a esquizofrenia histórica: inclusão social sem educação ambiental e reconhecimento da contribuição fundamental de índios e pretos a civilização brasileira é um engodo das elites iludidas pela Colonialidade. Como poderiam poucas dezenas de soldados e missionários portugueses, inferiorizados pelos seus rivais castelhanos dentro da ambígua União Ibérica (1580-1640) conquistar o gigantesco rio Amazonas, povoado por milhões de indígenas falando milhares de "línguas dificultosas"? (ver "Rio Babel - a história das línguas na Amazônia", de José Ribamar Bessa Freire). 

Sem remos e arcos tupinambás não existiria o Maranhão nem o Pará. Isto é, a Amazônia brasileira. Então, o amigo leitor já se indagou por que razão a guerreira nação Tupinambá, cuja religião era a vingança, amiga dos franceses e que odiava de morte o colonizador luso até o Nordeste; veio a aliar-se ao partido português desde Jaguaribe, no Ceará; em direção ao Maranhão e Pará? O mesmo que a alienação historiográfica, podemos dizer do reprovável "desenvolvimento" moderno da Amazônia custe o que custar... 

Lendo o relato acima de Christina Amorim, nós nos recordamos dos antecedentes da Reserva Extrativista Florestal Mapuá (Breves, na ilha do Marajó) lugar de memória do acordo de paz de 27/08/1659 com base na lei de abolição do cativeiro dos índios de 1655; entre o padre Antônio Vieira, superior das missões no Maranhão e Grão-Pará e os sete caciques Nheengaíbas (Anajá, Aruã, Guaianá, Pixi-Pixi, Mamaianá, Mapuá e Camboca), dando fim a mais de 40 anos de guerra desde a tomada de São Luís do Maranhão (1615) pelos portugueses (cf. Padre Antonio Vieira, carta ao rei de Portugal Dom Afonso VI, datada de 1659 em Belém do Pará, publicada em Lisboa em 1660). 

Para alguns pesquisadores, as pazes de que trata a carta de Vieira a Dom Afonso VI (na verdade à regente mãe dona Luísa de Gusmão) é coisa "inverossímil"... E há historiadores que acham o tema da pacificação dos Nheengaíbas sem "interesse acadêmico"... Mas, sabemos que de fato as tais "pazes" do rio dos "Mapuaises", inventadas ou verdadeiras, redundaram logo na criação das aldeias missionárias de Aricará (Melgaço) e Arucará (Portel). Por este caminho deu-se a ocupação da ilha do Marajó pela coroa portuguesa, até então no enclave de Gurupá tomado aos holandeses em 1623, sem poder controlar a passagem das canoas de "drogas do sertão" e entrar na ilha do Marajó... Foi assim, com o encontro de Mapuá que os portugueses conseguiram, perto da Contracosta; o Pesqueiro Real (ver praia do Pesqueiro, Soure) antes mesmo da doação da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665-1757) ao secretário de estado do rei Afonso VI; donde o trabalho escravo de índios iona (joanes) ou sacacas abasteceu Belém do Pará de peixe moqueado (defumado ao moquém), que valeu como moeda corrente para pagamento de funcionários, soldos da tropa e côngruas dos padres, até a segunda metade do século XVIII. 

No lugar de memória do antigo Pesqueiro Real (monopólio da coroa com pescadores indígenas escravos) veio a se estabelecer a Reserva Extrativista Marinha de Soure, primeira unidade de conservação desta categoria na Amazônia: demanda da Associação dos Caranguejeiros de Soure (ACS), em pé de guerra contra invasão dos manguezais de seus antepassados "Maruanases" [Maruaná] por concorrentes vindos do outro lado do rio Pará, de São Caetano de Odivelas, prováveis descentes de antigos inimigos étnicos tupinambá. 

História com final feliz quando agora chegou a vez da Associação dos Caranguejeiros de São Caetano de Odivelas ver implantar também sua Reserva Extrativista Marinha. São pequenas vitórias da Criaturada, como estas, que merecem grandes comemorações. O que vem fazendo a Reserva Extrativista de São João da Ponta, por exemplo, é digno de grandes reportagens e documentários de divulgação internacional. Por que não? 

Todo degustador de caranguejo e peixe frito deve ser amigo das comunidades de reservas extrativistas. Os voluntários dos direitos humanos da Criaturada grande de Dalcídio, temos dúvidas se o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) considera informações históricas de raiz antropológica em suas atividades educativas junto às comunidades de usuários de Breves, Soure e outras regiões. O voluntariado citado poderia, certamente, colaborar com as comunidades através de ecomuseus e/ou entidades assemelhadas, de modo a recuperar a memória dos lugares, sempre que possível, em parceria com entidades de extensão universitária. No campo de trabalho, muitas vezes, técnicos do ICMBio fazem das tripas coração a fim de cumprir a missão que deles esperam as comunidades, porém o próprio Instituto deve receber da sociedade e do governo melhores considerações.

Há diversos ecomuseus no Brasil filiados à Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários (ABREMC)Uma proposição poderia ter em vista o percurso do carimbó nas comunidades paraenses, notadamente seu ápice na década de 1970. Por coincidência, década em que na França surgiu o conceito inovador de ecomuseu, a criação do Museu do Marajó (1972), em Santa Cruz do Arari (margem do lago Arari, berço da civilização marajoara) e a outorga do Prêmio Machado de Assis ao romancista Dalcídio Jurandir pelo conjunto da obra, no mesmo ano deveria servir de reflexão.

Voltado a sua criaturada o autor do ciclo literário Extremo Norte e Lucindo Rebelo da Costa dando voz e ritmo aos povos das águas, foram contemporâneos e suas respectivas artes promoveram Marajó e o Salgado no Brasil e no mundo. Mestre Lucindo, nascido modestamente em Água Boa, na ilha de Cajutuba; foi fundamental para Marapanim se tornar conhecida como a "terra do carimbó". Dalcídio (Ponta de Pedras, 1909 - Rio de Janeiro, 1979) nasceu numa casa pobre do Campinho, na vila de Ponta de Pedras e morreu vítima do mal de Parkinson, na cidade do Rio de Janeiro aos 70 anos de idade. Mestre Lucindo (Marapanim, 1908 - 1988) faleceu aos 80 anos, vítima de complicações do diabetes. Em 2008 foi comemorado o centenário de nascimento de Mestre Lucindo com inauguração de sua estátua em Marapanim, criada pelo artista Edson Amoras, o Bada. O centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir decorrer no ano seguinte. Unidos pela vida e a morte na mesma sina amazônica, agora ambos residem encantados na memória da Criaturada.


O sentimento nativo transforma a paisagem descobrindo tesouros ocultos no imaginário.

Fragmentos de entrevista do pesquisador Antonio Maciel acerca de registros e encontros com mestre Lucindo: 

O pesquisador reafirma a origem indígena do carimbó e estudou a vida e a obra de Mestre Lucindo, uma das maiores referências do ritmo popular do Pará. O trabalho de Maciel, através de dissertação de mestrado (PUCC/1983) e doutorado (USP/1995), é reconhecido no mundo acadêmico. 

"Mestre Lucindo, conforme era conhecido, foi um exímio contador de histórias reais ou imaginárias. Homem dotado de mente pura, intuitivo - “sou poeta de natureza” - músico e compositor autodidata, nosso poeta maior buscou em cada cena do seu cotidiano - na Terra, na Água, no Ar ou no Fogo do amor - motivos de inspiração para compor, tocar e cantar seu “Carimbó”, arte que herdou do pai e cultivou com total dedicação paralela à profissão de pescador, no decorrer de sua longa existência. Reunidas numa vasta antologia poética de abrangência amazônica, planetária, as histórias e cantorias do pescador Lucindo - ricas de sabedoria secular e de imenso valor linguístico e literário - são falas de resistência, denúncia, alerta contra ações predatórias praticadas pelo capitalismo da pesca ou extrativismo, que constitui séria ameaça à natureza e à economia sustentável do caboclo. Personagens simbólicos do universo amazônico - pássaros, peixes, répteis - ganham forma e alma humana na obra de Lucindo, onde o mítico e o poético, o real e o imaginário se fundem numa simbiose perfeita, homem e Natureza interagindo no perene jogo cíclico da vida. Esta harmoniosa relação passaria por radicais transformações de ordem histórica, social e cultural com o advento das estradas, modernos meios de transporte e comunicação, nos idos de 1930, além do instrumental de trabalho industrial incorporado aos afazeres diários. A poesia de mestre Lucindo conduz a uma fascinante viagem pelo universo da literatura oral. Nesta busca inquietante, em defesa dos direitos inalienáveis do homem, preservação ambiental, o poeta autodidata utiliza-se intuitivamente de breves narrativas e belas metáforas, para nos falar da esperança do porvir na Amazônia e no planeta, num tempo passado futuro do presente".


O que é o “Carimbó Praieiro”?

"O “Carimbó Praieiro” surgiu com o movimento migratório de comunidades que habitavam as terras firmes, onde praticavam agricultura de subsistência. Até as primeiras décadas do Século XX, o nordeste paraense ainda vivia um estágio de semi-isolamento. Empurradas por pecuaristas e madeireiros, empreenderam êxodo para os grandes centros urbanos em busca de melhores perspectivas de vida; ou para a região litorânea, onde iniciariam um novo ciclo de subsistência ligado às atividades pesqueiras. Porém, grandes companhias equipadas com a moderna tecnologia de pesca (potentes barcos motorizados e redes de arrasto) logo ameaçariam a cadeia produtiva do caboclo o qual, para garantir o sustento da família e abastecimento das geleiras, barcos que comercializam a produção do pescado regional, distanciou-se de seus padrões existenciais herdados dos antepassados (fabricação de redes, velas para as embarcações, conhecimento empírico náutico dos ventos e dos mares). Ele aderiu à moderna tecnologia da pesca, a qual lhe trouxe algum conforto, bem-estar, porém, além do prejuízo sociocultural das rodas, mudou sua visão de mundo. Mestre Lucindo é o porta-voz daquele universo carente de políticas públicas efetivas e transformadoras."


Qual o sentido da poesia de Lucindo no contexto amazônico?

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O Homem amazônico, em especial o ribeirinho ou habitante do litoral, vive em função da cosmogonia periódica da vida, num processo cíclico ditado pelas águas, mais precisamente pelos fenômenos da enchente e vazante, os quais são determinantes de todo um movimento de manutenção cíclica das espécies vivas, sejam animais, aí incluídos os seres humanos, sejam os vegetais, “numa simbiose tão perfeita que só pode ser atingida por via do Mito” (Socorro Santiago, 1986). A poesia de Lucindo expressa essa realidade em que homem, fauna, flora envolvem- se numa prodigiosa relação diária de mútua cooperação, comungando da mesma fonte de subsistência, a Natureza! Grupos e espécies, num jogo de equilíbrio e de perfeita harmonia, são atores humanizados deste teatro-“show” da vida, desempenhando os mais diferentes papéis no grandioso palco do universo natural. Fogo, terra, água, o ar são altares sagrados, onde o Homem sacrifica os seres e a si mesmo, a morte de uns perpetuando a vida de outros, no “Mito do Eterno Retorno”. Algumas temáticas poéticas do Mestre: 1) Luta pela vida, jogo do poder, pesca predatória: A astúcia é uma arma muito eficiente neste jogo: “Periquitambóia pendurada no caminho/Pra comer, comer o passarinho/ Olha a cobra, passarinho! Xô!(Lucindo). A cobra verde (periquitambóia) cumpre seu papel de predador natural na cadeia alimentar. Camuflada entre as folhagens e galhos, ela espera o momento certo para atacar a presa desavisada. O poeta dá seu grito de alerta: “Olha a cobra”! No âmbito social a periquitambóia é um símbolo perfeito do discurso ideológico. Construído com o intuito de convencer, ele aliena, anula, devora consciências... Para denunciar a decadente economia do pescador ou do agricultor, bem como ameaça à biodiversidade, o poeta utiliza-se quase sempre de personagens que povoam seu universo natural; da relação predatória entre espécies, alerta para as ações predatórias do homem contra o próprio homem e o meio ambiente: “Quem leva a vida arriscada na praia é o sarará / Quando nem bem ele pensa, lá chega o guará / Cuidado, sarará que lá vem maguari / Se ele te pegar, sarará, tenho pena de ti” (Lucindo). O “sarará” vive ameaçado pelo “guará” e “maguari”, predadores que atacam de cima, com precisão. É preciso vigiar, ficar atento. A morte cíclica entre espécies imoladas no perene jogo da vida é justificada pela necessidade da preservação, mas, entre os seres humanos deve ser diferente: todos – “grandes” e “pequenos” – temos direito a valores inalienáveis como liberdade e vida: “Eu tenho pena do meu canário que vive preso numa gaiola / É prenda de uma senhora” (Lucindo). A pesca predatória, praticada por grandes companhias, tornou-se uma ameaça à extinção de algumas espécies marinhas. O poeta denuncia e exige uma resposta: “Pescador, pescador, por que é / Que no mar não tem jacaré / Pescador, pescador, por que foi / Que no mar não tem peixe-boi / Eu quero saber a razão / Que no mar não tem tubarão / Eu quero saber por que é / Que no mar não tem jacaré / Ah, como é bom pescar / Na beira mar / Noite de luar” (Lucindo). 

2) Regionalismo, imaginário, romantismo, o amor. O caboclo é apaixonado por sua terra natal. O desafio constante por que passa leva-o a arraigar-se, a apegar-se à terra, criar profundas raízes de afetividade, talvez devido ao fato de ele ter plantado em cada pedaço de chão ou em cada braço de mar uma esperança de vida. Esse sentimento regionalista transforma a paisagem, descobrindo tesouros ocultos no imaginário amazônico, a exemplo da lenda da princesa encantada no Maiandeua. Filha de Dom Sebastião, rei de Portugal, o qual jamais esteve por aqui, ela espera ser libertada do fundo das águas pelo seu herói: “A praia de Algodoal / É linda e tem riqueza / No farol do Maiandeua / Aonde mora a princesa / Eu já vi a princesa falar / Eu já vi a princesa cantar / No farol do Maiandeua / Na praia de Algodoal” (Mestre Pedro da Vila Maú). O caboclo não faz turismo em sua terra, torna-se nômade quando necessário; ele herdou de seus antepassados a busca incessante da tão sonhada “Terra sem Males”. O repertório poético do Carimbó é rico de temáticas amorosas: “Deixei o meu nome escrito na areia do alto mar / Quando você vê minha letra deve se alembrar / Ah não chore não gosto de você / Escrevi meu nome pra você não me esquecer” (Lucindo). Quando o homem quebra a harmonia do universo natural e age como depredador, no intuito de extrair meios de subsistência ou riquezas, o poeta torna-se um guardião implacável em defesa da vida, numa autêntica declaração de amor: “Minha rolinha que marisca pelo ar / Não mate a rolinha não sabe avuar / Minha rolinha que marisca pelo chão / Não mate a rolinha é do meu coração” (Lucindo). 

3) Interação, ecologia, modernidade, devastação. O poeta do Carimbó assume sempre uma postura em favor da preservação da ecologia, razão de sua própria existência. Num tempo em que o homem ainda não dispunha de moderna tecnologia, havia uma necessidade vital de aprender com a natureza, ouvir o canto do pássaro, no final da tarde: “Juruti cantou lá na beira do roçado / A noite já vem chegando, esperando o namorado” (Lucindo). A compreensão da “fala” dos ventos e das marés exigia perfeita interação com as espécies, para se nortear na lida diária da pescaria: “Maçariquinho no meio do igarapé / fazendo pé ré ré na reponta da maré” (Lucindo). “O maçarico é o relógio do pescador; avisa a hora da reponta, quando a maré passa de vazante para enchente, vem trazer comidinha para ele e peixe para o pescador. A gente num vive sem o maçarico(...)”. Mas, o advento da modernidade trouxe mudanças significativas nesta mútua relação de aprendizagem, rompendo o cordão umbilical que manteve o homem primitivo intrinsecamente ligado ao seu universo natural por meio do diálogo. O poeta denuncia o processo de devastação das florestas para fins de exploração madeireira, agropecuária ou a abertura das rodovias na região: “O pau rolou, rolou, rolou no chão/ O pau rolou, rolou, rolou no tempo do verão / O pau caiu, caiu, caiu / O pau caiu, caiu lá na mata e ninguém viu” (Lucindo). A preservação da natureza, “fita verde”, é condição única para a continuidade da vida não só em âmbito regional, mas no planeta: “Se eu soubesse que tu vinhas / Eu fazia o dia maior / Dava um nó na fita verde / Pra prender os raios do Sol” (Lucindo).

UNIVERSIDADE / UNIVERSALIDADE DA MARÉ

                 Pescador

Pescador, pescador por que foi

Que no mar não tem peixe-boi?
Eu quero saber a razão
Que no mar não tem tubarão
Eu quero saber por que é
Que no mar não tem jacaré

Ah! Como é bom pescar
Na beira mar
Em noite de luar
Ah! Como é bom pescar
Na beira mar
Em noite de luar



"Durante a minha pescaria, estudava a natureza, então fazia meus versos. O banco da minha canoa foi a minha escola” - Mestre Lucindo


Heranças:
caminhos e portulanos do mar português



Fernando Pessoa - MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Já sabemos que o Maranhão e o Pará tiveram ativa participação de casais (famílias) emigrantes das ilhas dos Açores, desde início de seu povoamento. Certamente, daqueles casais de emigrantes açorianos no século XVII, restarão ainda alguns descendentes em famílias de elite de Belém do Pará e São Luís do Maranhão, notáveis representantes de morgados da velha Lusitânia. Entretanto, quantos pobres algarvios, madeirenses e açorianos daquele tempo deixaram seus genes misturados a pobres tapuios, curibocas e cafuzos da Criaturada grande de Dalcídio?

Por exemplo, Vicente Juarimbu Salles (Vila de Caripi, Igarapé-Açu, 1931 - Rio de Janeiro, 2013), descendente de migrantes cearenses deixou uma vasta obra que responde a esta questão. Ele quando jovem, participando da célebre Academia do Peixe Frito, no Ver O Peso; foi orientado pelo poeta e folclorista Bruno de Menezes (Belém, 1893 - Manaus, 1963) a ir se "iniciar" com mestres da encantaria em Algodoal. Tipo de alto curso em ecocultura amazônica... Onde o grande Vicente foi dar os primeiros passos nesse conhecimento tradicional que os cantadores de carimbó praiano expressam livremente. 


Vicente Juarimbu Salles foi um dos maiores pesquisadores e difusores da história e da cultura amazônicas, formou-se em Ciências Sociais com ênfase em Antropologia. Destacou-se pelo estudo da presença negra na Amazônia e publicou vinte e dois livros e cinquenta e uma microedições (livretos artesanais feitos por ele) em diversas áreas — música, folclore, literatura, teatro. 

Filho do rábula Clóvis de Mello Salles e da dona de casa Maria Cristina Passos Salles, ambos cearenses, Vicente foi o terceiro de sete filhos do casal. Como outros tantos refugiados das secas do Nordeste, estudou e revelou a Amazônia misteriosa. Recebeu ele o nome indígena Juarimbu como homenagem de seu pai ao povo Tembé, que vivia na região em que ele nasceu na bacia do rio Maracanã. Passou a infância em Castanhal, onde foi amamentado por uma ama de leite quilombola, chamada Maria Pretinha, que lhe ensinou cantigas e histórias. Seu pai o alfabetizou em casa, ambiente em que teve acesso a diversos livros da biblioteca paterna, de clássicos a literatura de cordel. 

Além de livros, o mundo de Vicente Salles foi povoado de modinhas cantadas pela mãe, serões políticos liderados pelo pai, que também gostava de ler em voz alta e cantada romances de cordel, que mais tarde se tornaram objeto de estudo do menino do Caripi. Sua obra mais conhecida é "O negro no Pará sob o regime da escravidão" (1971). Mostrou por onde circulavam aqueles sujeitos, como participaram ativamente do movimento da Cabanagem e, finalmente, como contribuíram para a formação cultural, política e econômica da região amazônica. Assim como na presença negra na Amazônia, Vicente Salles foi pioneiro na pesquisa sobre a literatura de cordel na região. Sua obra tem sempre como tema o negro e o folclore, num período que vai do século XVII ao XX. Um intelectual do Nordeste Paraense, quiçá descendente longínquo dos casais dos Açores? Poucos filhos de Castanhal tiveram consciência dessa herança ultramarina como o jornalista, escritor e juiz Raimundo Holanda Guimarães, nativo da vila Apeú. Autor do romance Chibé (1964), explorando temática iniciada por Bruno de Menezes em Candunga (1954). Ou seja, o efeito climático das secas prolongadas na região do Nordeste, gerando pressão migratória sobre o Nordeste Paraense; a nordestinização do Pará com efeito no ciclo da Borracha e na política regional debaixo da revolução nacionalista de 1930.

A posição geográfica de Portugal, na esquina do mar Mediterrâneo com o oceano Atlântico, mais a ocorrência de uma lavoura de subsistência pouco favorável a acumular capital, conspiraram para formar um povo de navegadores extraordinários. Nossos colonizadores, durante muito tempo, associados a mercadores estabelecidos na península itálica; dominaram segredos das correntes marítimas e o regime de ventos do Atlântico. A corrente equatorial marítima repartida em frente à costa do Brasil, mais ou menos em frente ao Rio Grande do Norte; na corrente quente das Guianas e a corrente brasileira esfriada no polo Sul com a corrente das Malvinas; mais ainda o poderoso vento Leste, determinaram a criação das duas colônias portuguesas na América do Sul: o Estado do Brasil e o Estado do Maranhão e Grão-Pará (Amazônia).

No início da história, o lavrador lusitano houve que se tornar mariscador em busca do que comer pelas rias e a beiras do mar. Este labor incipiente ensinou ao povo português uma cozinha criativa para variar a "comida da fome", no dizer de Saramago na obra "Viagem a Portugal", na qual o escritor se põe a trilhar velhos caminho de Almeida Garrett. 

Para vir ao Salgado amazônico, carece mergulhar no passado do mar português. Ao sal do tempo que conserva o fascínio do Mar-Oceano e incitou o pescador costeiro fosse ele africano, europeu ou americano a se apetrechar para pesca em alto mar, conhecer as correntes, os ventos, a fortuna e os perigos pela observação dos astros, das aves e sinais de terras distantes. Falamos muito dos heróis, reis e missionários, e muito pouco de degredados, migrantes e povoadores do vasto mundo de ultramar. As lendas de sereias e tritões vindas do imaginário hindu habitar o fundo de rios, lagos e igarapés da Amazônia colonial portuguesa... Voduns e orixás sagrados no altar dos corações de navios negreiros atravessando a grande noite do Atlântico Sul.. Turcos encantados a bordo da diáspora espiritual prestes a refazer suas vidas além da morte na corte armorial do rei Dom Sebastião... Uma tão longa viagem rumo ao Novo Mundo.

Esta saga colonial começou no Algarve e na ilha da Madeira como escola não só náutica, sob disfarce da célebre escola de Sagres, porém efetivo ponto de partida para os descobrimentos e conquistas de novos territórios. A experiência do arquipélago da Madeira foi adaptada às novas terras nos Açores, Cabo Verde, São Tomé e Brasil aonde foram enviados modelos administrativos e militares, assim como quadros governamentais formados na Madeira. 

Na expansão do contexto insular atlântico, o papel comercial do Brasil vai predominar, assim como a costa africana exportadora de escravos. Os interesses comerciais da Madeira foram mesmo, até certo ponto, confundidos com os do Brasil, estabelecendo-se um complexo intercâmbio comercial que levou à fixação maciça de madeirenses principalmente no Nordeste. Eu não posso me esquecer de minha professora Alda Natália Gonçalves dos Santos, filha do casal madeirense dona Carolina e seu Vicente Gonçalves... 

Em parte, também ficou esta relação umbilical do Brasil com a ilha da Madeira ao surto excepcional da produção açucareira do nordeste brasileiro. No entanto, igualmente se estabeleceram várias correntes migratórias madeirenses para outras áreas do Brasil e depois para Angola, então organizadas pela própria Coroa, através da constituição de levas de soldados e envio de casais (famílias de lavradores).

Aí que eu queria chegar para rastrear vestígios açorianos da Criaturada grande do Nordeste Paraense, em especial no Salgado. Fiquemos mais um poucos na ilha da Madeira, antes de passar aos Açores... Ao longo destes séculos, desempenharam papel cada vez mais determinante comerciantes e interesses ingleses, ao ponto de no início do século XIX, a Madeira ser uma base militar da Inglaterra para invasão da Europa. A soberania portuguesa estava relegada ao último grau, hasteando-se a bandeira britânica em todas fortalezas expulsando-se do Funchal o governador português e o bispo católico. Os cônsules ingleses desempenhavam papel central de governo insular, havendo instruções especiais a este respeito. A ingerência dos cônsules estrangeiros na llha, assim como a permanente migração dos madeirenses e seus contatos estrangeiros levaram a Ilha, nos meados do século XVIII, a constituir um centro de difusão do liberalismo.

Tal como na Madeira, a administração das ilhas dos Açores foi feita através do sistema de capitanias. As primeiras constituíram-se nas ilhas de São Miguel e de Santa Maria. Em 1450, na sequência da progressão ocidental do descobrimento das ilhas, foi criada a capitania da ilha Terceira atribuída ao flamengo Jácome de Bruges, as restantes ilhas também se encontravam sob administração de capitanias. Muitos desses imigrantes que povoaram Açores seriam cristãos-novos e judeus sefardistas obrigados a converter-se para fugir a perseguições da da igreja católica. Através das Ordenações Afonsinas, Portugal procurou atrair judeus e flamengos para as ilhas do Atlântico mediante distribuição de terras. Assim, longe da Europa continental, esses emigrantes ficariam livres de perseguição religiosa.
Os Açores tinham população suficientemente para que a Coroa portuguesa incentivar a emigração de famílias açorianas para terras brasileiras, sobretudo Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mas o povoamento do Maranhão e Grão-Pará, desde 1619, recebeu logo casais dos Açores. No século século XIX os Açores tiveram papel importante no ressurgimento da pesca do bacalhau. 

ESTER DE SÁ MARQUES - Universidade Federal do Maranhão
IMIGRAÇÃO AÇORIANA NO MARANHÃO
E FUNDAÇÃO DE SÃO LUÍS
...se tu te fores
como dizes que te vais
deixa-me o teu nome escrito
numa pedrinha do cais...






A imigração de casais açorianos para o Brasil começou no séc. XVII, quando famílias constituídas por 219 pessoas embarcaram no dia 29/03/1677, no barco Jesus, Maria e José em Horta, Ilha de Faial, com destino ao Grão Pará, atual estado do Pará.


A França reagiu ao tratado de Tordesilhas (1494) desde sua homologação pelo papa Alexandre VI, tachando o acordo luso-espanhol de "testamento de Adão". No momento que Portugal estava sob domínio espanhol, depois que o rei D. Sebastião desapareceu numa cruzada ao Norte da África, em 1580, e a Holanda não faz por menos, os franceses estimulados pelas trocas de escambo com os índios, há mais de 30 anos, estabeleceram a colônia chamada a França Equinocial. 

Para o reino espanhol a presença dos franceses no Maranhão era ameaça à segurança das rotas de comércio português com o Brasil, assim como constituía risco dos franceses penetrar o rios das Amazonas para oeste e chegar às minas de prata e ouro no Peru. Por isso Felipe III ordenou ao governador-geral do Brasil Mem de Sá que retomasse a região norte ocupada pela França Equinocial.

A Coroa Portuguesa, por sua vez, deu função de comandante da conquista do Maranhão ao pernambucano Jerônimo de Albuquerque, mameluco que conhecia a região. Segundo Simão Estácio da Silveira, depois de várias batalhas, depois de muitas mortes, as tropas de Jerônimo Fragoso de Albuquerque, compostas por 400 portugueses (contados já os mestiços de pais portugueses e mães indígenas) e 220 índios aliados que trouxera de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, conseguiu reconquistar o Maranhão para a coroa portuguesa, nos termos de Tordesilha, na batalha de Guaxenduba, em 1615, com auxílio do comandante Alexandre de Moura. 

No confronto em 1614 morreram mais de 500 índios e uns 100 franceses. Um ano mais tarde, as forças portuguesas reforçadas em homens e munições, conquistaram São Luís e em 1616 fundaram Belém já com o concurso dos próprios tupinambás antes aliados aos franceses.

Passada a reconquista, foi necessário consolidar o domínio ibérico na região amazônica, principalmente. A primeira providência foi a criação provisória do Senado da Câmara, em 1615, por Alexandre de Moura que o colocou sob governo de Jerônimo de Albuquerque e determinou reforma do forte "Saint Louis" que passou a se chama forte de São Felipe. O engenheiro-mor do Rei, Francisco de Frias Mesquita, foi responsável pela reforma e o primeiro plano urbano da ilha de São Luís com colaboração de seis pedreiros, carpinteiros, ferreiros, oleiros e serralheiros.

Naquela altura, a tarefa mais urgente era o povoamento da região, já que o número de brancos e mulheres residentes em São Luís era reduzido. A intenção de garantir as fronteiras e afastar ameaças, principalmente da França, Holanda e  Inglaterra.

«Na verdade, a princípio, havia um audacioso projeto de colonização da faixa de Capitania Hereditária, denominada de Maranhão e doada a João de Barros em 1535. Para concretizá-lo, em outubro de 1535 saiu de Lisboa uma expedição com 10 navios, ocupados por 900 homens de armas, sendo 113 com cavalos, farta munição, comandada pelo capitão-mor Aires da Cunha, com representação de Fernão d'Álvares de Andrade e dois filhos de João de Barros. Foi a maior expedição despachada do Reino em caráter particular, mas naufragou na costa brasileira. Houve ainda duas outras expedições fracassadas, em 1550 e 1555, a última por terra.» (Meireles apud Martins 2002:17)

Já em 1615, o governo português apela para a Igreja através dos Jesuítas e para os Açores , através de decreto real, requisitando casais para conquistar a região amazônica, prometendo-lhes em troca "uma nova vida num novo mundo". A intenção de Lisboa era, ao mesmo tempo, controlar a densidade populacional dos Açores e oferecer aos emigrantes das nove ilhas melhores condições de sobrevivência no Maranhão. As ilhas eram assoladas por terremotos e vulcões, saqueadas por piratas e corsários, pragas arrasavam as lavouras. Com esta criaturada queria os mandatários da coroa garantir na colônia amazônica o domínio português assegurando a defesa do litoral e povoando núcleos de colonização no Pará e no Maranhão.

O decreto real que requisitava casais não aceitava qualquer cidadão que desejasse se alistar. A preferência era para casais com filhos jovens ou em fase de procriação e para as mulheres donzelas, jovens e solteiras que desejassem constituir família. Era desta forma, a coroa pretendia um povoamento controlado na região. Assim, o alistamento dos casais imigrantes consistia em anotar, além do
nome, a naturalidade, a residência, a idade, a profissão, a estatura, a cor dos cabelos, da pele e dos olhos, o formato do rosto, a forma do nariz, da boca e da barba, o estado civil e, se casado, o nome da mulher, a filiação desta, a sua naturalidade e idade, e, caso tivessem filhos, o nome e as respectivas idades. Mas, além desta "elite" emigrada foram enviados também muitos degredados, assim como uma quantidade de homens de pequenos ofícios tais como pedreiros, oleiros, serralheiros, mercadores, mecânicos e ferreiros, evidentemente proletários para servir aos casais mais favorecidos.

Daí que, os primeiros imigrantes açorianos que aportaram no Maranhão, em 11 de abril de 1619, vieram às custas do contratador Jorge
de Lemos de Bettencourt, que obteve através da carta régia de 12 de abril de 1617, autorização para transportar 300 casais ao Pará, num total de mil pessoas, ao final do qual receberia o valor de 400 mil réis e a capitania de Pernambuco. 

Em 1618, os imigrantes partiram dos Açores, sob comando do capitão Simão Estácio da Silveira, em três navios, mas parte deles morreu na viagem chegando ao Maranhão apenas 95 casais ou 561 almas, segundo Frei Vicente do Salvador.

Com os primeiros imigrantes vieram costumes, a culinária, festas, o modo açoriano de ser e estar, bailados, lendas, mitos e superstições, o jeito de falar e a alma alegre que se incorporaram ao saber local, tornando-se aspectos comuns às duas culturas desde então. «Na nau de que fui por capitão se embarcaram perto de trezentas pessoas, alguns com muitas filhas donzelas, que, logo chegando, casaram todas e tiveram vida que cá lhes estava mui impossibilitada, e se lhes deram suas légias de terra.» (Silveira 2001 : 25)

Mas, logo que chegam estes primeiros imigrantes também rebelam-se contra as precárias condições que tiveram que suportar desde o início da viagem; condições semelhantes as que eram infringidas aos escravos africanos e que iam desde a má alimentação até a superlotação das embarcações, já que estas viagens eram sempre financiadas por particulares em troca de favores da Coroa Portuguesa. 

Por exemplo, a viagem que deveria ser efetuada pelo contratador João Pereira Seixas custaria: «os casais (marido e mulher) em idade útil e com filhos, num total de 400 praças, implicariam num investimento de 1.600 mil réis, ou seja, 4 mil réis por casal; a roupa, 400 mil réis; as ferramentas e as armas, outros 400 mil réis, e o fretamento do navio, 600 mil réis.» (Rodrigues & Madeira 2003 : 258)

É evidente o fato de que nesta altura, a monarquia hispânica envolvida com diversas frentes de guerra, procurava direcionar a política de transporte e fixação dos casais para particulares que, em troca, recebiam títulos, algum dinheiro ou através da doação de terras no Novo Mundo, além de percentuais sobre as riquezas adquiridas com extração de minérios ou da produção de produtos agrícolas. Portanto, assim que chegam ao Maranhão, os colonos recusam-se a seguir para o Pará. «Em terras amazônicas, o conflito estalou entre Jorge de Lemos de Bettencourt e os colonos, que, ao invés de seguirem para o Pará, ficaram no Maranhão, situação que levou o rei a ordenar que se determinassem os motivos por que tal acontecera.» (ibidem : 252)

Este primeiro conflito denota desde logo uma situação que se tornaria comum nas expedições posteriores: a falta de uma política real para a vinda dos colonos que, sem garantias de qualquer ordem, acabavam por se envolver em conflitos com os contratadores num primeiro momento e, com os residentes locais num segundo momento. De fato, já nesta primeira viagem, os colonos açorianos, com receio de serem mortos ou de passarem fome do Pará, exigem do rei que garanta a permanência de 333 pessoas no Maranhão ou a terça parte dos mil indivíduos envolvidos que Jorge Lemos de Bittencourt se obrigara a transportar. O contratador, no entanto, insistia que a sua missão tinha sido cumprida a serviço do rei e que os colonos eram apenas súditos, sem vontade. «esta jente são suditos (sic) e não tem vontade (....) toda esta gente veo por sua vontade para o para como he notorio não tem de que se queixar.» (ibidem : 253)

Apesar de representar a primeira tentativa de colonização de homens livres em territórios de além-mar, a falta de uma política de fixação definitiva tanto por parte da Coroa Portuguesa, como dos contratadores acabou por causar alguns transtornos ao processo de colonização da nova região. A vida na nova terra, coberta por florestas, animais selvagens e por índios, era muito difícil e, por isso, havia a necessidade de usar a mão-de-obra indígena para colaborar na instalação dos novos povoamentos, mas também na organização da agricultura, o que acabou gerando uma série de revoltas. «Como em regra, no Maranhão, o colonizador usufruiu a rivalidade tribal para efeitvar o seu projeto de domínio. Entretanto, as etnias restantes do grande extermínio, bem como os guerreiros nativos aliados, deveriam ofertar trabalho à nova civilização em construção, dividida em interesses de dois projetos: ora perseguidos pelo colono que os queriam escravos, ora defendidos pelos jesuítas, que os queriam cristãos e nas obras da Igreja.» (Martins 2002 : 23). Para tentar resolver os impasses gerados por essas revoltas, o Senado da Câmara que havia sido criado provisoriamente em 1615 é finalmente instituído em 1619 com o objetivo de organizar a vida civil e econômica da ilha, ficando o Capitão Simão Estácio da Silveira como juiz e Presidente; Antonio Simões como Procurador; os Sargentos-mor Antonio Vaz Borba e Álvaro Barbosa como Vereadores e Jorge da Costa Machado como Juiz. «Dentre as medidas mais importantes, cite-se a instalação da Câmara, de que Estácio da Silveira foi feito juiz. Já em dezembro do mesmo ano de 1619, regressava ele a Lisboa, credenciado pela Câmara como procurador da conquista do Maranhão, cujos interesses se propunha defender.» (Duarte 2001 : 7-8)

As dificuldades enfrentadas pelos colonos não impediu, no entanto, que novas levas de imigrantes chegassem ao Maranhão, despertados pelas promessas de uma vida melhor e de enriquecimento no Novo Mundo. Do mesmo modo, era necessário insistir no povoamento do extenso litoral da região Norte/Nordeste do Brasil, que continuava vazio e fustigado por invasões estrangeiras e, do interior (sertão) que permanecia inexplorado e, por isso, a Coroa Portuguesa estimulava os particulares com recursos para participar do projeto de colonização. É certo que os contratadores tinham que dispor de capital suficiente para suportarem os gastos com os navios, os fretes e a alimentação dos casais, sem qualquer garantia da Coroa de retorno, caso o investimento não desse certo. «A colonização era não apenas o capítulo menor na aventura de guerra e de controle de territórios, mas também deixava esses homens e mulheres nas mãos dos seus agentes.»
(Marin 2002 : 44)

No entanto, o sonho da aventura de conquistar o Novo Mundo e de encontrar aí grandes riquezas, tal como aconteceu com a conquista espanhola na América do Sul e Central, não impediu que em 1620, Manoel Correa de Melo, conseguisse transportar 200 casais, oferecendo em troca 400 mil réis para Jorge de Lemos Bittencourt. Antes, em 12 de julho de 1619, Antonio Ferreira de Bittencourt, natural da ilha de São Miguel, conseguiu uma autorização da Fazenda Real dos Açores para transportar, no período de três anos, cerca de 50 casais para o Maranhão, tudo à custa da sua fazenda. De fato, o navio São Francisco chega ao Maranhão no dia 29 de outubro de 1621 com 40 casais, totalizando 148 pessoas, conforme consta a certidão datada de 24 de novembro de 1622, apresentada pelo provedor da Fazenda Real dos Açores . «Estavam esses colonos contemplados no plano de governo metropolitano de instalar a indústria de açúcar incluindo dois engenhos de moer cana-de-açúcar, o primeiro sendo instalado na terra firme à margem do rio Itapecuru.» (ibidem : 43)

Politicamente, e por causa das dificuldades de comunicação que existiam entre o Maranhão e a sede do governo em Salvador, foi criado em 1621 o Estado do Maranho e Grão-Pará, com capital em São Luís, posteriormente desmenbrado do resto do país pelo alvará de 21 de março de 1624. Este fato, juntamente com a criação da Companhia do Comércio do Estado do Maranhão em 1682 transformou a região em exportadora dos produtos agrícolas para Portugal, facilitando o intercâmbio entre a colônia e a Coroa, mas também aumentando a necessidade de reforço populacional em toda a foz do Amazonas. Esta companhia seria substituída em 1755 pela Companhia Geral do Comércio do Maranhão e Grão-Pará iniciando a exportação de algodão para a Inglaterra, fato que acabou por separar o Maranhão do Pará em 1774.

Os primeiros imigrantes açorianos foram responsáveis pelo estabelecimento de uma base demográfica mais estável para a ocupação e exploração dos solos, incluindo aí também os responsáveis pela viagem como aconteceu com o Capitão-mor Simão Estácio da Silveira que recebeu em 30 de julho de 1619 duas léguas de terras e, uma outra por carta no dia 6 de agosto do mesmo, confirmadas de acordo com a Ordenação de Felipe III em 27 de julho de 1622, conforme registro das Chancelarias Régias de Felipe III. Os colonos recebiam na sua chegada, mantimentos fornecidos ou pelos contratadores ou pelo governo local; terras para fazerem casa de moradia e para o aproveitamento agrícola dos solos com as culturas de pimenta, tabaco canela e também de cana-de-açúcar para a produção de açúcar e aguardente.

Desbravador, Simão Estácio da Silveira tudo fez para desenvolver a nova terra, conforme refere Duarte. «Nesse sentido, de Lisboa e de Madri dirigiu petições ao Rei, ora propondo novo itinerário para a prata extraída do Perú, ora buscando arrendar a exploração de pau-brasil, pelo que oferecia pagamento em dinheiro e se comprometia a fundar povoações, desde que lhe fosse permitido introduzir colonos e gado nas novas terras. Do muito que pleiteou, nada obteve.» (Duarte 2001 : 8)

Não conformado e ainda no governo do Capitão-mor Diogo da Costa Machado, Simão Estácio da Silveira escreve a obra 'Relação Sumária das cousas do Maranhão: dirigida aos pobres deste Reino de Portugal', onde relata com entusiasmo as riquezas e a exuberância da nova terra. Ele começa por reforçar as fronteiras que nesta época estavam a ser confirmadas pelo Tratado de Tordesilhas:

«O Maranhão é uma conquista muito grandiosa e dilatada, cuja governação Sua Magestade tem demarcado desde o Ceará (que está em três graus e um terço da parte do Sul) até o último marco do Brasil, que está em dois graus da banda do Norte, em que há de costa perto de quatrocentas léguas até o rio de Vicente Yánez Pinzón, onde dizem estar um padrão de mármore com as armas de Portugal desta parte, e as de Castela da outra, mandado ali fixar pela cesárea magestade do Imperador Carlos V. Corre dele a costa a leste quarta a sueste. Tomou este nome de Maranhão do capitão que descobriu seu nascimento no Perú, e para o sul tem mais de quinhentes léguas pelo sertão.»
(Silveira 2001 : 29)

Depois, fala dos rios Munim, Itapecuru, Pindaré, Mearim onde abundam peixes, mariscos e moluscos de todas as espécies, «em todos e em cada um destes rios se pode fundar um reino opulentíssimo, porque tem boníssimas águas, muitos pescados, muitos excelentes terras, muitas madeiras, frutas e caças.» (ibidem : 38), fala do clima ameno e suave da região onde sempre é verão; da pureza das águas com suas inúmeras fontes e ribeiras; da fertilidade da terra onde se plantando tudo dá; do pão feito de milho; do vinho feito de mel e de palma de babaçu; dos rebanhos de bovinos, de caprinos e de suínos, além dos muito animais de caça que viviam na ilha . Para este açoriano, o Maranhão era a melhor terra do planeta pela riqueza, abundância e tranquilidade tal como diz no final da sua Relação :

«Eu me resolvo que esta é a melhor terra do mundo, donde os naturais são muito fortes e vivem muitos anos, e consta-nos que, do que correrem os portugueses, o melhor é o Brasil, e o Maranhão é Brasil melhor, e mais perto de Portugal que todos os portos daquele Estado, em derrota muito fácil à navegação, donde se há de ir em vinte dias oridnariamente.» (ibidem : 63)

Em 1624, quando estas palavras são escritas o Maranhão contava já com 300 habitantes, divididos nas fortalezas de São Felipe e São Francisco em São Luís; São José, no povoado de Itapari e a de Nossa Senhora da Conceição na região de Itapecuru. Além dessas, contava com duas estâncias onde moravam alguns franceses que ficaram na ilha, depois de casados com índias, mestiços e portugueses, assim como 09 aldeias espalhadas nas circunvizinhanças, cujos índios serviam aos colonos.

Enquanto os franceses faziam nova tentativa de colonização na região da Caiena, a partir de 1633, disputando a área com os holandeses e ingleses, novas levas de imigrantes estimulados pelas palavras de Simão Estácio da Silveira-, chegaram no Maranhão em dois períodos distintos, já depois de Portugal ter reconquistado a sua independência em 1640. O primeiro foi em 1648-1649 quando um decreto real, expedido em 19 de setembro de 1648, quiz recrutar 100 casais na ilha de Santa Maria, ou mais ou menos entre 500 a 600 pessoas, tarefa que foi concedido por ordem do Conselho Ultramarino de 6 de abril de 1649 ao mercador alemão Martin Filter. Deste modo, além dos 52 casais que foram de Santa Maria, outras 365 pessoas da ilha de São Miguel chegaram ao Maranhão em agosto do ano seguinte, conforme relata Manuel de Sousa Menezes num artigo de 1952 .

Outra leva de imigrantes ocorre entre 1666-1667 quando outros 50 casais da ilha do Faial chegam ao Maranhão e ao Pará, a pedido do governador Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho que precisava de mão-de-obra para continuar o processo de colonização da nova terra. Além do governador, o representante dos colonos, Paulo da Silva Nunes também escreve ao Rei de Portugal dizendo que a solução estaria em povoar o Maranhão com casais da Madeira, fato que levou a Coroa Portuguesa, através de decreto, a requisitar anualmente 50 casais das ilhas.

Se a situação no Maranhão era grave, a do Pará era muito pior já que, nesta altura, existiam somente 200 casais em toda a região, um contingente muito pequeno para consolidar o processo de povoamento da região e consolidar uma política econômica mínima de subsistência. Mais tarde, em 1674, o capitão-mor da ilha do Faial, Jorge Goulart Pimental, embarcou 50 casais ou 234 pessoas provenientes da comunidade de Feiteira que havia sido devastada por uma erupção vulcânica em 1672. Assim, em 18 de agosto de 1675, a fragata Nossa Senhora da Palma e São Rafael parte da ilha do Faial chegando a Belém no ano seguinte para trabalhar na agricultura. Desta vez porém, a solicitação de colonos exigia que os casais fossem compostos por homens idôneos para o trabalho, cujas mulheres fossem capazes de procriação, isto é, que pudessem ter muitos filhos para formar novas povoações. Além disso, os homens deveriam ter alguma profissão ou pequeno ofício tal como ser sapateiro, lavrador, alfaiate, carpinteiro, ferreiro, serralheiro, entre outros.

Novamente, em 1677, mais 50 homens, 47 mulheres e 126 pessoas de família partiram da ilha Terceira com direção ao Pará, na charrua Nossa Senhora da Penha de França e São Francisco, para consolidar a fixação da Nova Terra fato que continuou pelos anos seguintes, segundo relatos da época. Apesar de todos os esforços de fixação de colonos no Maranhão e no Pará, os franceses continuavam a tentar marcar a sua presença na região amazônica entre os rios Amazonas e Orenoco até 1700 quando conseguem fixar-se na Guiana. «O conflito fronteiriço luso-francês seria objeto de um tratado em 1697 e de outro, provisório, em 1700, confirmado por novo acordo de 1701. O tratado de 1700 estipulou que a fronteira entre os territórios portugueses e os franceses era o rio Oiapoque, também identificado como rio de Vicente Pinzón. À França caberiam todos os territórios localizados a norte do Oiapoque.» (Rodrigues & Madeira 2003 : 260) 

Ainda assim, os conflitos sobre os limites territoriais atravessaram os séculos XVIII e XIX e só acabaram em 1900 com a fixação definitiva dos limites do Brasil e, depois de vários tratados e acordos. De qualquer modo, os problemas diários enfrentados pelos colonos como o clima quente e úmido, a falta de uma política econômica, o descumprimento do acordo de fronteiras por parte dos franceses obrigaram a Coroa Portuguesa a definir um novo projeto cartográfico do território brasileiro e a realizar quatro grandes expedições militares, destinadas a confirmar o domínio português na região. «Seria somente durante o consulado pombalino e na sequência do Tratado dos Limites em 1750, que novos contingentes de Açorianos chegariam ao litoral amazônico (...) Desse modo, desde o início de 1750 que assistimos à execução por parte da Coroa Portuguesa, de uma política de incentivos ao transporte de colonos para o então Estado do Grão-Pará e Maranhão.» (ibidem : 261)

De fato, é somente com a intervenção pombalina em 1750 que os colonos passaram a ser denominados de açorianos e a ter um tratamento diferenciado porque tinham que cumprir dois objetivos claros: o de miscigenação e o de urbanização. Para tanto, os colonos passaram a ser pequenos proprietários de terras que antes pertenciam a donatários, foram incentivados a produzir com financiamentos públicos-, maior diversidade de produtos, entre os quais legumes e mandioca para o abastecimento da região e até poderiam receber honras e títulos pelo trabalho desenvolvido.
Assim, logo em 1751, 86 casais alistados na ilhas ou 486 pessoas chegaram ao Pará por solicitação do governador e capitão-general do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, situação que se repetiria em 1752 quando em novembro chegaram mais 432 pessoas das ilhas, entre os quais alguns velhos e muitas crianças.

Estes colonos colaboraram na fixação dos povoamentos de São José do Macapá, Bragança e Ourém, no Pará, assim como os 900 soldados
açorianos que chegaram em 1753 para substituir os casais desistentes.Contudo, as precárias condições de sobrevivência a que foram submetidos, os comportamentos reprováveis de alguns ilhéus, sobretudo dos degredados, as informações sobre violência sexual contra as índias e, principalmente os confrontos entre os colonos e os escravos, índios e mestiços ou entre os colonos e os contratadores continuava a impedir um projeto de povoamento equilibrado. Apesar disso, a influência açoriana contribuiu não somente para a fixação das fronteiras, povoamento e miscigenação, mas também para a fixação de capitais locais, a adaptação de técnicas comerciais e agrícolas, a organização de um mercado de trabalho escravo, o incentivo e diversificação da produção agrícola. «A colonização fez emergia um grupo de pequenos produtores escravistas, combinando na relação terra, trabalho e crédito a dinâmica da agricultura mercantil. Todavia, a entrada dos produtos nos circuitos mercantis significou, em muitos casos, o endividamento e a estagnação dos empreendimentos.» (Marin 2002 : 58)

Durante todo este tempo, a França, a Inglaterra e a Holanda continuaram tentando derrubar o princípio do mare clausum, juntando ao direito divino aspectos do direito natural, cujo argumento refutava a tese da Igreja. Os países alegavam que o Papa não tinha o direito de transferir os territórios, porque o dominium não dependia do direito divino, mas do direito natural, daí que os títulos apresentados por D. João III não tinham força nem vigor de lei. Assim, para a França o conceito de propriedade era o que se ocupava e se podia guardar, o que forçava de alguma maneira Portugal colonizar o Brasil ou deixá-lo livre para outros conquistadores. Chamados de Os chineses do Ocidente pelo sociólogo Gilberto Freire, os açorianos que, de fato imigraram para o Maranhão, nestes primeiros tempos instalaram-se, misturaram-se, casaram-se sem grandes preocupações ou escrúpulos de cor, de origem, de cheiro ou de altura. Também tinham um profundo sentido de família; eram trabalhadores natos, com tino para a agricultura e o comércio, mas não se lançavam a grandes empreendimentos, preferindo o pequeno investimento. A família, a tradição, o pequeno comércio, a capacidade teimosa de sobrevivência. 

E uma religiosidade de fé, de certos cultos, mas pouco eclesial como relata Monjardino: «são profundamente rústicos, intensamente resistentes, são como a vinha Isabela, que não cede às doenças mas que só dá vinho rico depois de enxertada. Em qualquer caso, quando as outras vinhas se perderam, a vinha de cheiro perdurou...» (Monjardino 1980 : 47)

Passados quatro séculos desde a primeira leva de imigrantes, ainda é possível observar vestígios desta presença em todos os cantos do Maranhão. Da festa do Divino do Espírito Santo ao baile de São Gonçalo, das festas juninas ao carnaval passando pela culinária, pela decoração e cores das casas, pelos nomes das famílias e pelos traços fisionômicos a presença açoriana ainda se faz sentir em cada sorriso do maranhense. Estas vestígios aprofundaram o nosso sentido de identidade lusitano, possíveis de manter em aberto a perspectiva de uma memória comum que possa continuar movimentando o motor da história de uma forma mais compartilhada e comprometida com a manutenção e dinamicidade desta história no mundo, não somente como uma maneira de se contrapor a todas as tentativas de standardização/ homogeneização cultural, mas como um processo específico de singularidade e diferenciação.


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