terça-feira, 28 de junho de 2016

BELÉM NOVA, 100 ANOS (1923-2023)


O poeta da negritude amazônica Bruno de Menezes (Belém, 21/03/1893 - Manaus, 02/07/1963) animador do grupo literário ndalos do Apocalipse (depois Grupo do Peixe Frito e Academia do Peixe Frito), anarquista, modernista, pioneiro da economia solidária (cooperativismo) na Amazônia.





Ele nasceu no Jurunas - bairro de todas tribos da cidade morena de Belém do Pará -, filho de uma família modesta da qual o mulatinho abriu caminho para conquistar lugar ao sol do equador para si e para todos seus. Morreu, inesperadamente, na pátria imortal de Ajuricaba: saiu do ajuri cabano e entrou na história literária pela porta principal da Amazonidade.

Quando Belém e Manaus se deprimiam sob impacto do colapso da belle époque da Borracha e a aristocracia seringalista não podia mais mandar filhos seus se bacharelar em Londres e Paris; por acaso na república do Ver O Peso o poeta de Batuque e São Benedito da Praia debaixo da bandeira sincrética do orixá Ossain com seus camaradas de fé abria a universidade da maré mais conhecida como Academia do Peixe Frito. Eu não posso me amofinar, era paresque o lema cabano que presidia o subversivo grupo boêmio e literário Vândalos do Apocalipse: uma declaração de guerra à colonialidade regional, à derrota precoce da civilização brasileira dependente e à decadência social e econômica das cidades ribeirinhas na Amazônia.

Desde o fundo dos seringais distantes, a Criaturada grande de Dalcídio ansiava pela libertação... Na escola formal, o irrequieto filho de seu Dionísio de Menezes e dona Balbina da Conceição não passou além dos estudos primários no grupo escolar José Veríssimo, no bairro de Batista Campos vizinho ao Jurunas donde o pirralho podia ir e vir a pé tomando lições de rua mais depressa que em sala de aula. Cedo ele precisou trabalhar, mas por sorte longe da estiva ele teve boa sorte de arranjar ofício de encadernador... Que nem Tó Teixeira e também o desletrado mulato carioca Machado de Assis, este um como aprendiz gráfico, instruído pelos livros que lia mais ou menos emprestados pelos próprios fregueses? 

Pode-se imaginar aquele antigo método de aprender fazendo, o aprendizado dialético proletário tomado por necessidade e acaso dos donos de obras clássicas com seus tesouros literários trazidos da velha Europa e consumidos pela inclemência da zona tórrida e o tempo de Belém do Grão-Pará roído de traças e cupins. O encadernador, neste caso, não era um tarefeiro daqueles comprado por qualquer dinheiro. Ele cobrava mais que uns simples trocados para o peixe frito e a farinha de cada dia? Lia tanto quanto podia demorar para acabar o serviço que a cabo do restauro saberia tanto ou mais que o rico proprietário do compêndio?

Inteligência viva e exuberante, logo o jovem Bruno exerceria sua natural liderança em meio à pasmaceira daquela estúrdia decadência. Naquele embate da quebra da Borracha, certamente, antes mesmo que os ecos da Semana de Arte Moderna de 1922, na desvairada Pauliceia ébria do sucesso do café furtado de Caiena pela tropa de guarda-costa do Pará e Cabo do Norte (Amapá) no encalço do cacique bandoleiro Guamá; já em navios-vapor de retorno de carregamentos de borracha para a Europa, as agitações da revolução industrial traduzidas no Modernismo em filosofia, pintura, letras perturbavam os espíritos acadêmicos da Província. O resto era o peixe frito e o peixe frito era com Bruno de Menezes.

Ele era o polarizador da mocidade agitada pelas incertezas do futuro: a revista BELÉM NOVA, então, indicou o norte... Até hoje quem quiser saber o que de fato o Pará velho de guerra representa na história do Brasil, há que fazer vestibular na Academia do Peixe Frito. Entre a revista e a posteridade a república do Ver O Peso continua sendo o umbigo territorial da Amazonidade.



O EMBRIÃO TOMOU CORPO E CRESCE AINDA

A revista BELÉM NOVA trazia de berço virtudes e defeitos dos anseios anticoloniais herdados da geração de Felipe Patroni com o jornal político independentista pioneiro O PARAENSE. O espírito cabano nascido da revolta de Cabelo de Velha, em 1619, propagado pela revolução de 1835 pelos filhos de Ajuricaba e dos Nheengaíbas; foi incorporado pelos Vândalos do Apocalipse inspirando as produções publicadas na revista de Bruno de Menezes e passou a fazer barulho na geração de Cleo Bernardo, Ruy Barata e a marajoara de Muaná Adalcinda Camarão, na revista Terra Imatura.

Há uma combustão telúrica permanente, que tece o tempo de fluxo e refluxo da maré pela espiral evolutiva do rio de Heráclito: destarte a história literária da Amazônia tem seus marcos como um álbum fotográfico de família fixa o incontrolável tempo em sua vertiginosa passagem da memória. O   Suplemento Arte Literatura dominical da famosa Folha do Norte, que circulou de 1946 até 1951, foi continuador desse mesmo espírito dividido entre acomodações e rebeliões permanentes na periférica Belém do Pará em busca de sua expressão geográfica na federação brasileira e no mundo. 

O Suplemento literário da Folha do Norte marcou época revelando as tensões entre regional-nacional-mundial que o estado geopolítico amazônico tampão Norte-Sul impõe. Para a tênue camada social parauara aquela publicação foi expoente da literatura e crítica literária da “Geração dos Novos” (poetas, ficcionistas e críticos paraenses, além de autores nacionais e estrangeiros do pensamento do pós-guerra. O Suplemento literário da Folha do Norte deu uma boa sacudida na vida literária da capital do Pará rompendo o isolamento "insular" no qual Belém se encontrava depois da quebra da Borracha até a construção de Brasília e da rodovia Belém-Brasília.

Dos anos JK em diante, acentuado com os 'milagre econômico' dos anos 70 do século XX, a Amazônia passou a sofrer uma recolonização acelerada. A redemocratização de 1988 trouxe-nos novas tensões e traumas históricos, como a guerrilha do Araguaia e seus mortos e desaparecidos, por exemplo; que estão longe de se resolver satisfatoriamente para as populações amazônicas. Então, o diálogo paritário entre intelectuais nacionais e estrangeiros sobre a Amazônia no contexto planetário contemporâneo não poderá ter futuro sem a descoberta e revelação do genuíno pensamento amazônico. O que o centenário da revista BELÉM NOVA pode suscitar, desde já faltando apenas sete anos para o evento, a caminho da Agenda 2030 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, assumidos pelos países amazônicos inclusive, perante a ONU.

É tempo da literatura amazônica reclamar melhor lugar no panorama brasileiro e internacional.



O núcleo modernista do Pará nos anos 20 do século XX, autodenominado Vândalos do Apocalipse; de esquerda para direita, sentados Paulo de Oliveira, Euclides Fonseca e Edgar Souza Franco, de pé Clóvis de Gusmão, Farias Gama, Bruno de Menezes e De Campos Ribeiro.

2 comentários:

  1. Bom ler sobre nossa história literária. Moços, negros, não abastados quiseram dar outro feitio, quase nada eurocêntrico, à nossa literatura. BRAVO POR ESTE INSTIGANTE ARTIGO.

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  2. VIVA, GRANDE JOSÉ VARELLA, DISPERSO E F
    OCADO 'FILHO' DOS PEIXEFRITANOS

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