terça-feira, 30 de setembro de 2014

ECOCULTURA GERAL PELA ETNOMEDICINA INDÍGENA

cd201_203.jpg
          Raphia taedigera Mart. -- Jupati





A HUMANIDADE FILHA DA ANIMALIDADE MORA NA AMAZÔNIA E A ECOCULTURA FILHA DA COBRAGRANDE HABITA O MITO DA PRIMEIRA NOITE DO MUNDO.

Segundo história de minha família, pela voz da avó postiça (na verdade minha tia, em lugar da índia progenitora morta no parto de meu pai caboco), quando a avó desta última se referia a alguma coisa de grande antiguidade, ela enunciava "no tempo da vela de jupati"... 

O tempo da vela de jupati, pois, para a civilização amazônica é o tempo da Cobragrande: configuração da serpente cósmica que engole a própria cauda e na mitologia indígena está suspensa acima das nuvens, junto às estrelas; por um cinturão feito de asas de borboleta. A insustentável leveza do Mito abala nossa pífia racionalidade pela subversiva poesia. O porquê eu não sei, só sei que foi assim; como diria o personagem mitômano de Ariano Suassuna.

A biologia da Anaconda em extinção com seu ecossistema perdido em favor do garimpo se desintegra no espaço territorial indígena, todavia sobrevive o espírito da cobra grande material mãe dos homens na arte do trançado em 1001 detalhes da pele de Tuluperê (cobragrande mítica), pela evolução do pensamento complexo e da ecocultura por este inventada em relação dialética carnal com a natureza da qual é parte. Prova de que a matéria-prima tem espiritualidades supimpas.

Tal qual se pode ver na arquitetura da grande casa coletiva dos povos do Tumuc-Humac, no disco armorial chamado "marauna"; mapa astral no topo do esteio central da maloca: simples imitação do mundo na aldeia extraída do mundo maior que é a grande floresta, com seus diferentes territórios na fronteira do real com o imaginário. 

Tempo pré-histórico que se perde na noite do tempo da invenção do rio Babel ou das Amazonas (aliás, Uêne dos aruacos ou Paraná-Uaçu dos tupis). Ver http://gentemarajoara.blogspot.com.br/2012/01/morte-e-ressurreicao-do-mito-pela.html com o choque cultural entre a colonização europeia e a resistência nativa das regiões amazônicas.

Já se deve saber que a antiga Cultura Marajoara, de 1500 anos de idade, constitui a primeira ecocultura amazônica, arte primeva do Brasil pré-colombiano. Por conseguinte, não é estranho o fato desta notável civilização equatorial, em 1972, ter tido destaque na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, graças a Jorge Amado que recepcionou a obra do "índio sutil", mestiço de corpo e alma, Dalcídio Jurandir atribuindo a ele o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra, primeiro e único romancista amazônico assim distinguido no panorama nacional. 

O segundo Machado de Assis para autor amazônida foi, merecidamente, para o filósofo paraense Benedito Nunes. Caminhamos assim, pelo arco das gerações, desde a primeira noite do mundo para as luzes amanhecentes do maior país amazônico do mundo, Brasil. Outrora, para a massagada tapuia, chamado terra do Arapari (constelação do Cruzeiro do Sul), das migrações do Caribe para as Guianas no tempo da vela de Jupati.

Por extraordinária coincidência, no mesmo ano de 1972, trágico para a civilização brasileira pela censura e ditadura militar na América do Sul, com triste destaque do nosso Brasil ("para onde o Brasil se incline vai se inclinar a América Latina - Henry Kissinger), às margens plácidas do Arari - berço da Cultura Marajoara deixada entre chuvas e esquecimento pelos poderes da República -, o padre insubmisso ítalo-marajoara Giovanni Gallo, só com seu engenho próprio e relutante ajuda da comunidade, inventava O Nosso Museu do Marajó

Um pequeno grande passo numa estrada de mil léguas para renascimento da velha Cultura Marajoara. A partir de "cacos de índio" (fragmentos de cerâmica, achados a esmo ao pé de sítios arqueológicos arrombados e saqueados para fins de contrabando) o milagre de uma inesperada "ressurreição". 

O Brasil brasileiro precisa conhecer o Marajó profundo que -- apesar de tudo --, ainda resiste à dominação cultural com a resiliência do tempo da vela de jupati e se alberga agora no sui generis museu do Gallo preparando-o, a par da criação da futura Universidade Federal do Marajó, a fim de receber repatriamento da cerâmica levada da ilha para o exterior deixando a pobre gente a ver navios.

Desde 1937, ano de fundação do IPHAN com sua opção preferencial pelo barroco colonial, enquanto o autor de "Marajó" ("primeiro romance sociológico brasileiro", no parecer de Vicente Salles), devido à perseguição política da polícia fascista da ditadura Vargas; se achava preso na famigerada cadeia São José, hoje felizmente polo joalheiro e de artesanato São José Liberto; a diretora do Museu Nacional Heloísa Alberto Torres, depois de viajar à ilha do Marajó, publicava artigo de fundamental importância à preservação de sítios arqueológicos pré-colombianos e ao estudo da Cultura Marajoara. 

Artigo este que continua atual, depois de setenta e sete anos passados, e se transforma com o andar do tempo da República Federativa em libelo contra a indiferença da intelligentsia brasileira a respeito deste patrimônio da humanidade, sob soberania do Brasil. De lá pra cá quase nada foi feito para remediar o absurdo. Não que a gente tenha esmorecido e ficado sentada calada na beira do rio, pois até já foi pedida criação da Reserva da Biosfera do Marajó, esperança de socorro pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

O descaso nacional, estadual e municipal a respeito deste ímpar patrimônio do bravo Povo Brasileiro é um fato extraordinário em contrate como o tanto que se fala de Amazônia em prosa e verso. Pensadores de renome internacional como Ignacy Sachs, por exemplo, com sua empolgante teoria das oito dimensões da sustentabilidade (social, cultural, ecológica, ambiental, territorial, econômica, política nacional (democracia) e política internacional) pregam uma certa ecocivilização amazônica. Capaz, talvez, de servir de espelho ao resto do mundo.

Grande utopia, certamente. Mas, a sonhada ecocivilização amazônica deveria ser inventada da estaca zero, para quem exatamente? Ou, melhor, será ressuscitar a antiga ecocivilização de 1500 anos por seus próprios herdeiros, principalmente, para as futuras gerações cabocas?

Ressuscitar uma perdida civilização neotropical das terras baixas da América do Sul, a modo da mítica Fênix, naturalmente, a renascer das cinzas da Floresta Amazônica queimada para dar pasto aos bois, campo a latifundiários forasteiros e trabalho escravo a migrantes sem-terra. 

A fim de demarcar o caminho da redenção, como farol do desenvolvimento socioambiental sustentável um extraordinário ecomuseu a par da excelência de uma universidade para o futuro do Trópico Úmido planetário, donde a resiliência de "cacos de índio" há de dar novos rebentos. 

Hoje, miseravelmente, o Marajó velho de guerra sofre com a desgraça de um indecente IDH de ignorância e fome ao abandono cruel do modo de vida da "Criaturada grande de Dalcídio" (populações tradicionais). Esta marginalizada gente ribeirinha descendente dos antigos povos Nheengaíbas das ilhas, dos quais o padre grande Antonio Vieira falou com esperança e graça na inventiva "História do Futuro", manifesto sebastiano de sua utopia evangelizadora a cabo da missão entre índios da Amazônia e introdução à heresia judaizante condenada pelo Santo Ofício sob título seráfico de "De Regno Christi in terris consummato" ou "Clavis Prophetarum". Arte retórica para concretude moderna de antigos sonhos proféticos na, até agora, impossível paz entre potentados cristãos, judeus e islâmicos entre os povos da Terra. 


UM PATRIMÔNIO MILENAR

Acredito que o fundamental na Educação Indígena seja a etnomedicina ameríndia. Velho saber dos pajés que o sábio Ermano Stradelli, com veneração e amor, fez coletânea honesta. Sem o devido conhecimento farmacopédico tradicional, sob salvaguardas reconhecidas, novos professores e doutores índios serão quase inúteis a seus povos como coleções de cerâmica marajoara fora de contexto em museus estrangeiros. Templos da cultura mundial onde somente um ou dois ilustres catedráticos fazem amostra a privilegiados visitantes, em maior parte entediados de contemplar saques culturais de colônias distantes.

Seria uma pena conservar relíquias e perder o espírito da antiguidade das coisas que, para progresso da ciência moderna, reclama a prudência de Platão com referência ao saber dos pré-socráticos: um comportamento orientado para obtenção e preservação da saúde através de práticas culturais dos Povos ameríndios. Qual a ética de combate à pirataria de marcas industriais de primeiro mundo em contraste à biopirataria de recursos naturais e culturais de terceiro e quarto mundos?

Todavia, elementos primordiais não constituem uma ciência conforme conceitos modernos, algo como estrutura idealmente definida. Mas, tampouco a etnomedicina não é um monte de conhecimentos tirados de experiências, tradições ou descobrimentos apenas reunidos pela identidade do sujeito que os produziu. São, na verdade, elementos dos quais é possível construir proposições coerentes ou não, para desenvolver prescrições mais ou menos exatas, elaborar novas teorias. Esses professores e doutores índios devem ser vistos e respeitados como curadores de um patrimônio valioso, a etnomedicina. Para isto capacitados a compreender e criticar o próprio sistema, tanto que a sociedade global envolvente. Assim mesmo, as sociedades minoritárias em evolução permanente, através de seus zeladores, não podem jamais perder de vista a antiguidade geral do vasto mundo de todos.


Pajé em aquarela de E. Goodall, 1842


O saber médico dos povos indígenas está fundado sobre elementos empíricos, mágicos, míticos religiosos e racionais sendo especial a influência ideológica da catequese católica e, mais recente, protestante. Enunciados, conceitos e práticas deste saber estão em boa parte, em oposição à ideologia dominante da formação social da sociedade global.


A etnomedicina, de modo nenhum, deve ser vista como panaceia que a cobiça dos "brancos", a exemplo de drogas exóticas que se tornaram vícios devastadores, queira dela se apropriar como muitas vezes já aconteceu. Pois, generalizações sobre práticas médicas ameríndias ou de qualquer outra região do planeta, apesar de interessantes na perspectiva de estudos teóricos, são perigosas porque, existem especificidades em cada sistema de crenças mítico-religiosas ou práticas culturais que podem restar ocultas e enganosas intencionalmente ou não. 

Por outra parte, comparações são às vezes como atalhos de pesquisa e permitem ampliar conhecimentos, organizando-os sob forma de teoria. Saberes aparentemente caóticos, embora reconhecidos, especialmente quanto ao uso de plantas, técnicas de êxtase ou mesmo conjunto de práticas, ditas primitivas, que possibilitam tratamento e cura de doenças, conhecer e controlar estados de consciência, emoções ou modificar sentimentos como práticas de saúde mental, se revelam importantes para as duas partes. Com frequência, entretanto, comunidades tradicionais se queixam de pesquisadores que não compartilham com seus informantes conclusões de trabalho, lesando desta maneira o diálogo que deveria existir entre ciência e saber tradicional.

Segundo Lévi-Straus, 1976, o "pensamento selvagem" se diferencia do conhecimento científico por ser analógico, baseado na intuição sensível, inteligência emocional; em lugar da percepção e da imaginação. Um se aproximando da bricolagem e poesia (inspiração artística) e outro se apropriando da lógica de contradições. A tentativa em transformar índios em cientistas ocidentalizados e pesquisadores em quase indígenas resulta complicada, quando não frustrante às vezes. O importante é que cada um, na relação colaborativa entre sistemas diferentes, entenda a situação do outro e que procure interpretar essas diferenças da melhor maneira possível.

A diversidade de sistemas etnomédicos exige compreender especificidades que adquirem função de adaptação em áreas ecológicas, grupos linguísticos e níveis de tecnologia resultantes do processo histórico da alteridade do conhecimento. Assim as diversas conquistas de cada povo ou etnia podem ser integrados a práticas semelhantes, tornado-se mais compreensíveis às razões de sua permanência ou extinção.

No livro "Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios Brasileiros" (1844), de von Martius, com todo preconceito do século XIX, ele observa que o médico chamado pajé, em língua tupi; apesar de não ser doutor, nem mestre ou professor, possui mais poder e influência na comunidade local que todos seus congêneres europeus. Explica o fenômeno como resultado da suposta "ignorância" dos nativos. No seu entender, a medicina indígena é comparável à magia e feitiçaria e ao xamanismo dos nômades asiáticos. 

Martius compara o pajé, ao sacerdote, profeta e adivinho, o zelador de coisas sagradas, conselheiro e legislador. Sempre um indivíduo de influência na sociedade indígena, que se distingue pelo espírito de observação, astúcia e labor, notando que esse mister, às vezes, está nas mãos de mulheres idosas. Seja como for, este homem geralmente idoso ou mulher velha, é depositário de conhecimentos tradicionais que o torna aos olhos da comunidade como um bem patrimonial notável, donde a transmisão de saberes de mestre a aprendiz é sumamente necessária.

Em vários momentos de sua obra, Martius faz referência a um culto ou saber desaparecido de modo semelhante aos xamãs siberianos. Declara-se pessimista quanto às possibilidades da "raça" ameríndia em achar solução de suas demandas de saúde por recursos próprios, ou face a sua condição social "inferior" diante da potência industrial da ciência médica europeia. Reconhecendo, porém, o vigor, constituição robusta e longevidade dos índios, sobretudo antes do contato com a civilização. Não fala de nenhuma doença da época como exclusivamente indígena.

Já a "História geral da medicina brasileira", de Santos Filho, relata que no século XVI os indígenas brasileiros acreditavam que as doenças eram causadas por seres sobrenaturais, astros, clima, maldições ou sortilégios. O tratamento comum era baseado flora. Daí vem a copiosa farmacopeia das plantas. O conhecimento dos indígenas sobre propriedades medicinais da flora foi mantido graças a anotações de missionários, barbeiros-cirurgiões e barbeiros e a tradição oral. Os indígenas recorriam a vários recursos como medicamentos: sangue humano ou de animais (reconstituinte), saliva (cicatrizante), urina (excitante e vomitiva), cabeça ou cauda de cobras e gordura de onça e outros animais. Bicos, garras, chifres, ossos, cabelos e sapos eram calcinados e pulverizados. Os remédios assim eram reduzidos a pó entre duas pedras e depois dissolvidos em água ou bebida. Emplastros feitos com o mesmo vegetal para uso interno eram aplicadas sobre partes externas afetadas. Graças ao conhecimento venenos na fabricação do "curare", usado em setas, flechas e lanças na guerra ou na caça; pôde a medicina moderna aprender com os índios aplicação de poderosos anestésicos. Também do conhecimento de vegetais como o timbó para matar peixes, a indústria moderna chegou ao DDT e outros pesticidas que hoje causam tantos males.


SEGUNDO A CRIATURADA FALTA SÓ UM GRAU PARA 'VINHO' DE AÇAÍ SER VENENO.

Alfred Wallace, coautor da teoria de evolução das espécies com Darwin, passou uma temporada no Marajó, mais precisamente, na ilha de Mexiana; e saiu de lá dizendo que caboco marajoara é um tremendo dissimulado. Carece manha para arrancar informações dessa gente e que este traço se deve, sobretudo, à longa opressão sofrida por esta gente durante sucessivas invasões do território. 

O plebeu inglês também matou a charada das "amazonas" de Orellana, ao perceber que índio quando quer se livrar de aperreio de branco, concorda cem por cento com tudo que o cara diz e responde de acordo com o gosto do perguntador a fim de o mandar embora ao mais rápido possível.

Eu queria entender direito esta estória de que "vinho" (sumo) de açaí é quase veneno. Malmente, eu sabia da lenda que diz ser 24 de agosto dia do Berto. O tal Berto é figuração do Diabo. No Marajó há várias estórias sobre o Capeta. Nesta, ninguém se atrevia a trabalhar no dia do Berto sob pena de sofrer sério acidente: em compensação, neste dia aziago o Diacho ia urinar nos pés de açaizeiro e, logo, o açaí preteja (amadurece) dando início à safra. Olha essa! Como que um pacto: o caboco respeita o Inimigo, mas em compensação o malvado presta serviço à gente... Wallace tem razão, não brinque com caboco: sobretudo se ele faz cara de besta... Caboco é índio da cabeça aos pés, apesar de ser índio com amnésia e que se pinta de civilizado, a fim de passar melhor no mundo dos brancos.

Sobre o tal "veneno" do açaí, acredito que pode ser efeito do mijo do Cão. O certo que caboco não mistura açaí com nada, nem açúcar. Só farinha, peixe frito e nada mais. O Berto em questão, logo se vê, é coisa de padre sobre a matança dos protestantes na noite de São Bartolomeu, em Paris, que como se sabe foi tudo por culpa do Diabo.

Na pajelança caboca, provavelmente, se acham ecos distantes da extinta etnomedicina dos antigos marajoaras, além de contribuições mais próximas vindas da Guiné e Angola, sem esquecer também o Cabo Verde e as ilhas dos Açores. A arqueóloga Denise Schaan em seu estudo sobre a Cultura Marajoara levanta importantes pistas sobre o que o grafismo da cerâmica marajoara representa como linguagem em contexto da área geocultural das Guianas e Caribe. 

Para muitos, a canção "Porto Caribe" de Paulo André e Ruy Barata, é uma lembrança de ritmos caribenhos na cultura paraense. Mas, historiadores e antropólogos podem concordar com a tese de Ciro Flamarion Cardoso que situa o arquipélago do Marajó dentro da área cultural guianense, entre a foz do Amazonas e a ilha de Trinidad, desde tempo da "vela do jupati", por assim dizer. Então, fica claro que o Pará teve diversos portos nas Antilhas e Guianas e que as fronteiras coloniais nunca foram seriamente obstáculo para trocas e empréstimos de sempre.

Estudos comparativos apontam genericamente a uma cosmovisão onde, aparentemente, conceitos de doença e morte divergem da mentalidade ocidental. A vida e a morte fazem parte do mesmo continuum e a doença é vista como desequilíbrio na relação Homem-Natureza, de tal ordem que não existe morte natural na cultura indígena. Se um parente morre significa que algum inimigo causou sua morte e para que a alma do morto ache sossego e não venha a perseguir os parentes vivos na aldeia, urge identificar e matar o inimigo ou pelo menos se vingar de um qualquer da parte contrária. Daí intermináveis rixas e "vendettas" entre sociedades indígenas e mestiças que estão à raiz de outras discórdias originárias.

O tratamento e cura das enfermidades parece ser um processo constante de guerra e paz entre o mundo dos humanos e o mundo dos caruanas (espíritos telúricos, que habitam as águas e as florestas). Cada trecho do território tem "dono" no mundo invisível e assim deve ser respeitado, sendo a morada do homem apenas lugar de passagem para outras dimensões da vida.

Naturalmente, fazendo parte inalienável do território ancestral plantas e animais são muito mais para os povos tradicionais que simples "recursos naturais": eles são partes integrantes da grande vida, mas tanto podem trazer remédio como veneno. A vida ou a morte... Já as sociedades antigas do Oriente e Ocidente sabiam que a diferença entre o veneno e o remédio está na dose. Aqui, além da dose, a diferença também está no bom ou mau uso que se pretenda. O que leva a etnomedicina tradicional a corresponder à bioética.

A palmeira nativa Jupati (Raphia taedigera Mart.) é, naturalmente, no reino vegetal, uma das plantas mais úteis da ecocivilização amazônida, depois da Mandioca (Manihot utilissima) e da Cueira (Crescentia cujete). Até hoje o jupati é matéria-prima para confecção de matapi (armadilha para captura de camarão), construção de casas, artesanato e no passado longínquo deu velas rústicas de navegação às igarités do Amazonas, conforme ainda se pode ver em desenhos de Codina na "Viagem Philosophica" (1783-1792) do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira. Do óleo de jupati se faz remédio e das sementes lindas biojoias. A mandioca dispensa comentários. E a utilíssima cueira é para antropólogos sinalizador de ocupação indígena em antigos territórios.

O tucumã (Astrocarium vulgare) merece menção especial na ecocultura amazônica, já como elemento seminal do mito da primeira noite do mundo e já pela transição do cru ao cozido (na etnologia de Lévi-Strauss) pela sofisticação da Canhapira, onde a cultura alimentar do índio se casa com a culinária do mocambo, por suposto. Antes de se converter na rica gastronomia afro-amazônica das populações mestiças da região.

Modernamente, a palmeira Açaizeiro (Euterpe oleracea) desponta como grande valor econômico que lembra glórias e misérias da belle époque regional, baseada no extrativismo da Seringueira (Hevea brasiliensis): desta vez, todavia, açaizais nativos tem chance -- ainda que pequena -- de se distinguir na economia extrativista da Amazônia fugindo da monocultura dependente do mercado externo. Aquilo que importou a insustentável civilização Paris n'América e terminou abruptamente, pelos anos 30, como o romancista Dalcídio Jurandir retratou em "Belém do Grão-Pará", "Ribanceira" e diversas passagens do ciclo romanesco Extremo Norte.

Que difere, então, o extrativismo socioeconômico do Açaí da estancada economia da borracha, entre fins do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX? O fato muito significativo de que, enquanto o invento dos índios Omáguas ou Cambebas, na região amazônica do Solimões; nunca deu royalties aos índios, mas sustentou Belém e Manaus com seus famosos teatros e precisou do espoliativo sistema de aviamento sob domínio de bancos estrangeiros e servidão de mão de obra nordestina tangida pelas secas. Já a produção de açaí tem um pé no importante mercado interno e outro na crescente exportação do produto. Não somos a China, mas aqui também se poderia dizer um país e dois sistemas.

O setor exportador, turbinado pelo FNO, cada vez mais tende a fomentar cultivos do agronegócio para a indústria. Entretanto, o mercado de consumo interno regional, inclusive programa de merenda escolar; tem possibilidade de organizar importante nicho ecológico-econômico, onde a proteção de açaizais nativos e agroecologia extrativista de base familiar se casam com a economia solidária tendo ênfase no desenvolvimento humano sustentável de comunidades tradicionais. Claro, isto já está a meio caminho andado. Porém ainda falta muito e sem a organização social e políticas das comunidades extrativistas interessadas não poderá progredir e resistir à pressão do grande capital do agronegócio.

Neste ainda periclitante nicho, que deveria ser privilegiado pela segurança alimentar, para proteção socioambiental inclusiva; o extrativismo familiar sustentável com a ecocultura amazônica sendo valorizada através da educação ribeirinha poderia ter apogeu desde que políticas públicas incentivassem regime autogestionário para integração de territórios e comunidades, com metas de IDH programadas e verificáveis. Donde unidades de conservação do meio ambiente em parceria com as comunidades de entorno poderiam oferecer à Criaturada grande oportunidade que a mesma aguarda há tanto tempo.

Claro que, no caso específico da mesorregião do Marajó, a APA de que trata o parágrafo 2º, VI, do Artigo 13 da Constituição do Estado do Pará; representa uma zona ecológico-econômica preferencial devido a seu ecossistema, a par do Baixo Tocantins, Baixo Amazonas e Amapá. Olhando o bioma inteiro, desta maneira, faz sentido projeto de criação da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia, cuja candidatura rola pelos escaninhos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, há mais de dez anos.

Assim, a resistência marajoara é expressão da resiliência do bioma fluviomarinho que deu parto à Cultura Marajoara, cerca do ano 400 da era cristã. Um bioma onde a Amazônia verde e Amazônia azul se entrelaçam, ao fluxo e refluxo da maré, para formar a Amazônia Marajoara, joia da coroa do Grão-Pará na comunidade de países amazônicos. E, portanto, resulta ser o Brasil perante o mundo o maior país amazônico.

Edgar Morin diz que o mundo ocidental carece religar os conhecimentos. Acho, modestamente, que Espinoza foi um dos primeiros pensadores a ir por este caminho e que Schopenhauer ensaiou fazer a ponte transcultural entre o Oriente e Ocidente no saldo das Cruzadas e ambição filosófica à margem do Caminho da Seda, sendo esta a primeira globalização da terra seguindo a rota da primitiva diáspora da mãe África para o mundo desconhecido.

Então, o século XXI reclama religar os conhecimentos para melhor conectar as regiões naturais e mundializar o planeta Terra agora com as mais recentes tecnologias de comunicação e produção de energia. Última fronteira da Terra, a Amazônia; há dez mil anos acolheu seus primeiros viajantes do mundo. Este ramo da humanidade paleo-africana, como as mais recentes pesquisas demonstram, fez seu percurso asiático passando ao continente americano pelo estreito de Bering. Geralmente, os antropólogos falam duma estimativa em torno de seis milhões de "índios" na Amazônia na época da "descoberta" da América... E, com ajuda da antropologia, recentemente os nativos amazônidas estão a religar conhecimentos com a antiguidade da própria terra: ficamos a saber que os tais "paleo-índios" descendentes de paleo-africanos, há pelo menos um milhão de anos e não apenas 6000 anos, aproximadamente, baseado no relato bíblico da criação conforme o livro do Gênesis, na tradição oral mesopotâmica compilada e transcrita na literatura rabinítica; começaram a ficar sedentários tardiamente, deixando pouco a pouco o nomadismo quando no velho continente seus contemporâneos já haviam construído grandes cidades, templos e palácios.

O estudo comparativo da África e da Amazônia nos dias de hoje se torna uma chance extraordinária para melhor compreensão planetária, desde a primeira fronteira da Terra até a última: a civilização do Nilo e a civilização do Amazonas, com certeza, tem importantes revelações a fazer na busca da Ecocivilização do futuro desde a religação de conhecimentos de antigas ecocivilizações, como a Cultura Marajoara de 1500 anos, por exemplo. 

Quem, entretanto, é detentor de conhecimento ou agente de intercâmbio que há de operar a religação demandada pela coletividade em nossos dias? Quanto mais o tempo passa, mais aumenta a complexidade do conhecimento. E quanto mais se conhecem as coisas, mais se compreende a grandeza das questões que restam sem resposta. 

Do átomo apenas deduzido através da filosofia dos antigos gregos, a física moderna não só aprendeu a manipulá-lo -- com boas e péssimas consequências para a humanidade --, como também aprendeu a subdividir o que antes parecia indivisível. A ciência desvendou a física da partículas, que já se acredita que o universo tem não apenas três, mas onze dimensões. 

Chamam a isto teoria das cordas e acredita-se, então, que o universo onde todos somos e estamos aqui e agora, a par de 7 bilhões de Outros seres humanos, semelhantes e diferentes ao mesmo tempo. O universo (do qual somos inseparáveis) oscila como ondas de energia num enormíssimo oceano que nos relembra a imagem do desconhecido "Mar Tenebroso" dos sonhos e pesadelos da humanidade. Esta imagem parece também a dança de Shiva descrita nos antigos textos sagrados da religião Hinduísta. De toda maneira, o mapa não é o território...

Para a natureza da Natureza não há problema nenhum: uma estrela que se apaga ou o nascimento de uma galáxia com incontáveis sóis, tudo é natural. Contudo, para o homem o problema existe e os cientistas procuram desvendar os mistérios do universo. A mudança climática, por exemplo, como reza a sabedoria popular: paga o justo pelo pecador...

A antiguidade produziu na Grécia um conjunto de ideias e conhecimentos do mundo àquela época que ainda hoje permanecem na base da civilização ocidental. Para o conhecimento tradicional o que não vem do amor vem da dor... O sofrimento, sobretudo da Fome, ensina a criatura a buscar reconforto e prazer da vida perdido com a ruptura umbilical. A primeira tragédia do ser humano ao separar-se da mãe Terra. Um drama edipiano universal.

Os antigos deuses, criados pelo homem, estão mortos tal qual Zaratustra (Nietzsche) falou. Mas, de toda maneira, o Deus da teologia moderna que a maior parte da humanidade acredita ter criado o mundo em seis dias parece ser, por diversos aspectos, sobrevivência em boa parte do velho pai de todos os deuses, chamado Júpiter pelos antigos romanos, apropriado pelo concílio dos bispos da Cristandade. 

De modo especial, na primeira concordata, digamos assim, entre a Igreja emergente e o Estado decadente; com o imperador romano Constantino, em Niceia (Turquia), ano de 325, para efeito de comparação entre o Velho e o Novo mundo, vamos anotar que a primeira cultura complexa da Amazônia (Marajoara) ainda levaria uns cem anos depois do concílio de Niceia para dar seus primeiros passos: a Amazônia é a última fronteira da Terra, estamos lembrados? 

Na Amazônia, militantes de Niceia só tiveram acordo com bárbaros marajós (chamados "Nheengaíbas", falantes da língua ruim) mais de 1300 anos depois, pela altura de de 1659; no incrível acordo de paz entre o Padre grande Antonio Vieira e os sete caciques da Ilha Grande dos Nheengaíbas (Marajó)... Até então atacados pelo inimigo canibal Tupinambá, desde muitas luas antes da presença dos europeus nesta crucial ecorregião da mítica Terra sem Males. Os historiadores profissionais não tem interesse nesta história, por falta de fontes convencionais. Mas -- no reino da Cobragrande --, os cabocos o que tem a ver com isto?

Importante perceber, com base no "Manifesto Antropofágico" (1928) de Oswald de Andrade, por exemplo; que o mapa original do Brasil dos brasis foi debuxado na infância do Gigante em vinho tinto de sangue, pela saga dos Tupinambás em busca da Yvy Marãey (paraíso na terra onde não existe fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte) donde a vítima heróica consumida em comunhão selvagem foi, geralmente, tapuia. 

Tal qual antigos gregos acreditavam que os deuses permitem que adivinhos ou profetas conheçam, mesmo que rusticamente, o futuro; caraíbas ou pajés-açus pela arte do sonho ou pela dança na caapinagem (festa brava do caapi extraído de folhas verdes de tabaco), com que os índios provocavam o entusiasmo guerreiro e o profeta tupi consultava o espírito Jurupari sobre premonições do devir.

Pela mesma via, artistas tinham inspiração, como Sócrates a quem os deuses ou Natura (na fórmula de Espinoza) favoreceu com um demônio (anjo ou mensageiro, no sentido grego da coisa) particular que lhe dava informações privilegiadas. E, na barbaridade brasílica, o misterioso Jurupari (inconsciente coletivo indígena avant Freud) ensinava os pajés a guiar os povos da Terra sem Males ainda em odor de selva, mergulhados até o talo na religião natural do Jaguar, pela comunhão do sangue e da carne do Herói invejado, através da sagrada guerra: fronteira entre o Animal e o Humano para travessia ao mundo dos Deuses.  

Será por isto que, durante a catequese católica, a Eucaristia cristã foi tão prontamente assimilada pelas multidões antropófagas? E a sublimação dos guerreiros nas arenas de futebol caiu feito luva na psicologia de massa em apoteóticos estádios, que mais parecem templos bárbaros ou naves-mães da nova mitologia extraterrestre a caminho do retorno à idade dos deuses de que fala Vico? A Genética reproduz células e corpos, mas a Cultura formata o computador biológico a fim de operar o programa, super complexo e avançado, chamando Mente... 

O sucesso dos jogos indígenas começa a despertar interesse entre "civilizados" amantes das Olimpíadas, já em expectativa da primeira edição dos Jogos Indígenas Mundiais (Palmas-TO, 2015), não teria explicação nos sutis mecanismos da psicologia da humanidade saturada da pletora de comodidades das grandes cidades? E que dizer das viagens de turismo a lugares exóticos, que movimentam uma indústria crescente da exploração do desconhecido na geografia pós-moderna? A mãe Natureza castiga pecados mil industriais dos distantes descendentes do rude "Homo habilis", mediante ajustes drásticos da Mudança Climática.

Temos exemplos mais próximos da destruição física e mental das Índias, no caso da França Equinocial (Maranhão), os frades franceses mal saídos da caça às bruxas na Europa medieval e já confrontados às artimanhas do gênio tupi-guarani no Novo Mundo, primeiras décadas do século XVII em transição para a modernidade, não duvidaram em doutrinar os catecúmenos dizendo a estes que o famigerado Jurupari é o Diabo em pessoa vindo oculto nas caravelas para arruinar a obra de Jesus Cristo no Novo Mundo. 

Era dizer, velhos diabos apossando-se das divindades indígenas em odor de santidade. Um passo para amaldiçoar deuses africanos (orixás e vóduns), tão logo desembarcaram de navios negreiros no templo pessoal de cada mãe ou pai de santo. Daí que dessa velha guerra santa do Catolicismo de Niceia chegamos hoje ainda ao combate ideológico das diversas religiões evangélicas às religiões sincréticas do catolicismo popular e de matriz africana ou ameríndia.  

Mas, não se esqueçam: a Amazônia é a última fronteira da Terra e a mãe África a primeira de todas fronteiras do globo. Não é verdade que a História acabou e que a obra do Homem está terminada, ela vem tão-só de começar, como ensinou o poeta pai da Negritude, Aimé Cesaire, no reino ultramarino mandinga da Martinica e Haiti entre outras Antilhas. Os rios Amazonas e Nilo juntos ainda tem muito para inventar e contar história com a arte dos Griôs. 

Assim, a região amazônica planetária conquistada sob estandarte de Dom Sebastião com os Turcos Encantados é a maior oportunidade para o país do futuro, Brasil procurado desde o velho continente -- o maior país amazônico do mundo --, dizer a que veio ao Novo Mundo. Os nativos das Índias Ocidentais não ficam muito distantes dos gregos e outros povos da Antiquidade influenciados pelas Índias Orientais, os quais pretendiam ver nos poetas, profetas e nas crenças  populares, traços duma revelação interior divina lançando luz sobre as trevas das origens dos mortais e o destino após a morte. 

Por sua vez os antigos gregos se aproximavam das crenças dos egípcios, que acreditavam que os homens são julgados por seus atos após a morte. Mas já se sabe que o Egito é filho da Núbia (o antigo Sudão e a Etiópia) através do Alto Nilo, que através do delta, em Alexandria, influenciou e foi influenciado reciprocamente, como Heródoto ensinava; pela Grécia desde a margem ocidental do mar Mediterrâneo. 

Discípulos da escola de Pitágoras, localizada no sul da Itália, em Crotona; acreditavam que a alma passa do corpo de um animal para o de outro. Platão não desprezou estas crenças, embora não as tivesse como exatas. Para ele, eram desejos ou sonhos que formam mitos de elevada poesia. Sua imaginação transmite brilho mágico e sugere  detalhes parecendo que Platão assistiu a mistérios do Além e encontrou nessa extravagante geografia idealista limbos, purgatório e um inferno para atormentar almas incorrigíveis. 

Estas visões impressionaram os espíritos de seu tempo e passaram, por tradição, a gerações seguintes no mundo romano até que com a decadência pagã os cristãos as modificaram um pouco já como dogmas religiosos. Dogmas cristãos transformados de diversas crenças, principalmente da religião judaica em confronto com o mundo exterior na Diáspora; terminaram por impactar povos originais das Américas a partir do descobrimento dos caminhos marítimos, até o dia de hoje. 

Em sua contradição histórica vem à luz com mais intensidade com advento da Democracia Americana, que por sua vez voltou-se para a velha Europa, num movimento semelhante ao bumerangue ou pendular; de influências recíprocas antes experimentado nas relações entre Oriente e Ocidente na bacia do Mediterrâneo, na primeira globalização do mundo conhecido; que depois passou ao espaço geocultural transatlântico.

No mundo antigo, Pitágoras foi fundador de uma corrente filosófica sincrética a qual aderiram alguns dos mais antigos pré-socráticos. Ele era discípulo de uma famosa profetisa (para não chamar ialorixá, visto que ambas margens do Mediterrâneo tiveram raízes religiosas afro através da civilização do Egito), filósofa e matemática chamada Temistocléia. Ao contrário da notável exclusão das mulheres no Catolicismo romano, na tradição pitagórica o gênero feminino era valorizado indicando uma vez mais influência africana via Egito. 

Da escola de Crotona fazia parte a filósofa Melissa e a matemática e física Theano, provavelmente esposa de Pitágoras. Tais pensadores revelam transição da magia naturalista ao racionalismo em seus primórdios. Para alguns pesquisadores, Pitágoras pode ser visto nos dias de hoje como filósofo feminista e sua escola recebeu muitas mulheres como aprendizes e mestras, vista como a escola filosófica grega mais influenciada externamente pelas religiões vindas do Oriente. Os pitagóricos deixaram uma herança filosófica continuada pelo Platonismo e o Cristianismo, assim que através de sociedades secretas, que chegaram aos tempos modernos.

COGITANDO SOBRE O MUNDO IMATERIAL


Platão em seu tempo acaba sendo, sobretudo, um enciclopedista que retira das doutrinas de Sócrates,   Heráclito, Parmênides e dos Pitagóricos uma suma filosófica. A teoria platônica faz do campo das ideias a originalidade de seu sistema, fonte donde a modernidade foi beber para chegar até Hegel.

Platão, papa vitalício dos idealistas, todavia, começou por estudar Heráclito cujo pensamento se baseia no fluir universal das coisas e orienta os materialistas de todos os tempos. “Tudo flui, dizia Heráclito, nada permanece. O mesmo homem não entra duas vezes no mesmo rio”. 

Desta ideia seminal, Platão tira consequência de que os seres que se acham em perpétuo devir, não merecem nome de seres. E a seu respeito só se pode ter opiniões incertas e dúvidas. Assim, as coisas em perpétuo vir a ser, não poderiam constituir objeto de uma verdadeira ciência, dizem os platônicos. Pois não não há ciência do que muda sempre. Só haveria ciência do que é fixo  e  imutável. Todavia, quando se observa seres em mutação permanente, nos damos conta de que eles reproduzem, na mesma espécie,   características constantes.   
 
Estas características se  transmitem  de indivíduo   para indivíduo, de geração a geração. São "cópias" de modelos universais, imutáveis, eternos a que Platão deu nome de "Formas  ou  Ideias". Na linguagem de Platão, a Ideia exprime o próprio objeto conhecido.   Assim, a Ideia de homem é a forma ideal de homem, que todos homens reproduzem com maior ou menor perfeição. Já podemos deduzir onde o ideal greco-romano clássico vai dar, quando os fundamentos "eternos" da Civilização universal entram em crise em confronto com o Outro sempre em mutação (como os vírus, que portanto, os brilhantes descobridores virtuais do átomo não imaginaram).

Para os platônicos a Forma é puramente inteligível. Ou seja, não  se  apreende  pelos  sentidos, todavia assim mesmo é um ser vivo. Na verdade, o único   ser verdadeiramente vivo (arquétipo), pois suas cópias sempre em mutação são mortais. A Ideia de   homem é o que realmente existe, que é eterno e imutável. Aquilo que pode ser conhecido e objeto da ciência. 

Platão ilustrou sua teoria na célebre alegoria da caverna. Onde os homens são comparados a prisioneiros acorrentados, que não podem virar a cabeça para trás e, assim, só enxergam sombras da realidade à sua frente, na parede de fundo da  prisão.


UM CÉREBRO QUE CRIA UMA MENTE, UMA MENTE QUE CONCEBE UM CÉREBRO


Do Homo habilis até o parto do Homo sapiens, diz a História natural, decorreu enormíssimo tempo, algo entre 2,3 milhões a 780 mil anos atrás. Esta espécie do gênero Homo é dos nossos parentes ancestrais a que menos se parece ao Homo sapiens, com braços mais longos, cavidade craniana menor e morfologia geral semelhante aos Australopithecus.

Alguns fósseis de Australopithecus datam de, aproximadamente, 2,6 milhões de anos, os mesmos foram encontrados ao lado de ferramentas de pedra que seriam entre 100.000 a 200.000 anos mais antigas que o H. habilis. O H. habilis fazia ferramentas de osso, madeira e, principalmente, de pedra lascada. A maior parte dos cientistas considera que o H. habilis é um dos ancestrais diretos do homem moderno. Existem evidências de que o H. habilis era predador, mas também presa, em especial do felino Dinofelis, da subfamília extinta Machairodontinae.

 Representação do Homo habilis
 Homo habilis (representação)


Alexandre Rodrigues Ferreira, naturalista português nascido no Brasil, na Bahia; em fins do século XVIII realizou vasto estudo da, então, Amazônia portuguesa que havia apenas algo com cem anos de colonização. Ao deparar com o Homem amazônico, descendente longínquo do H. sapiens africano, não vacilou em registrar diferenças do homem moderno europeu, que lhe pareciam importantes para não meter tudo num saco. E assim, a "Viagem Philosophica" deixou de sua passagem registro da curiosa classificação de um certo H. sapiens var. Tapuya, bicho-homem que habitava a Amazônia: vítima preferencial da antropofagia tupinambá e de escravidão em mãos dos católicos portugueses. 

O intrigante "sapiens Tapuya" do sábio de Coimbra, todavia, cerca do ano 400, havia criado a mais interessante arte brasílica, na ilha do Marajó, e seus descendentes "falantes da língua ruim" (Nheengaíba, aliás um diversificado grupo linguístico nuaruaque) foram esbulhados pelo rei português Afonso VI, deposto do trono pelo próprio irmão, Dom Pedro II de Portugal; que o acusou de imoral (suposto de homossexualismo), impotente e mentecapto, para ficar com o trono e a rainha sua cunhada francesa. Na verdade, com a morte do pai e do príncipe herdeiro coube ao infeliz filho de Dom João IV e Dona Luísa de Gusmão, acometido de meningite na infância que lhe deixou sequelas, o pesado fardo de continuar a restauração da monarquia portuguesa após sessenta anos de domínio espanhol: assim terminou o drama do rei gay sem consumar o casamento, asilado nos Açores e morto em desespero em Sintra.

Durante o conturbado reinado de Afonso VI, a obra missionária do Padre Antonio Vieira na Amazônia portuguesa foi completamente arruinada e o "paya-açu dos índios" e seu confrades jesuítas foram expulsos do Pará e Maranhão pelos colonos; processado e preso Vieira foi condenado pela Inquisição por "heresia judaizante" (o Quinto Império do mundo, ou "Reino de Jesus Cristo consumado na terra"): uma utopia evangelizadora, segundo a qual cristãos, judeus e muçulmanos passariam a viver em paz sob autoridade de um príncipe católico (universal). Vieira tomou por base a profecia do poeta Bandarra e a teoria do rabino Menassé ben Israel de que os índios americanos seriam descendentes das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia. Não foi ele o único jesuíta a propagar tal ideia. Ademais, Vieira além de sebastianista confesso atuava por cálculo pelo conhecimento da debilidade econômica do reino de Portugal, queria revogar o édito de expulsão dos judeus portugueses para os atrair de volta com seus capitais, o que desgostou demais aos cristãos velhos que haviam suas riquezas nos confiscos do Santo Ofício e na escravidão nas colônias.

No Pará, ao contrário do combinado para paz entre portugueses e rebeldes nheengaíbas, com com base da lei de 1655 de abolição dos cativeiros indígenas; os índios do Marajó continuaram a ser caçados como bichos pelas tropas de resgate para trabalho escravo, e a ilha grande foi doada como capitania hereditária ao secretário de estado Antonio de Sousa de Macedo (Capitania da Ilha Grande de Joanes, 1665), origem espúria das sesmarias. 

Cem anos mais tarde, com a segunda expulsão dos Jesuítas do Pará, o Marquês de Pombal aplicou a "solução final' contra a aguerrida resistência dos Nheengaíbas, com o malfadado regime do "Diretório dos Índios" (1757-1798), com que os índios que não conseguiram escapar para a Guiana francesa foram todos "civilizados" e declarados súditos de Portugal. Deste modo, o extravagante "H. sapiens var. Tapuya", de Alexandre Rodrigues Ferreira, entra na história amazônica sob a nova etnia dos Cabocos (Caa Bok, saídos do mato): ou seja, Criaturada grande (populações tradicionais amazônicas).


MUDANÇA CLIMÁTICA: 
O QUE NÃO VEM PELO AMOR VEM PELA DOR.


Está na cara que as populações tradicionais são capital humano de alto interesse para invenção do chamado desenvolvimento sustentável. Se acaso os brasileiros ainda não percebem, grandes organizações não-governamentais estrangeiras atuam com desembaraço para lhes conquistar. O problema é que os "brancos" bandeirantes são cegos arrogantes que só sabem mandar custe o que custar... E Rondon queria proteger os índios para fazê-los civilizados, mais ou menos, como o iluminista Pombal.

Entretanto, o tempo começa a mudar. Com a mudança climática no centro das atenções da Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez na história realizou-se, em Nova York, Conferência Mundial dos Povos Indígenas, com enfoque na Mãe Terra e o futuro do planeta.

Estabelecemos um importante precedente com respeito aos nossos direitos. O sonho é que isso nos permita ter uma vida mais próspera para todas as pessoas beneficiadas por este dia”, disse Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz e renomada ativista indígena da Guatemala. Para ela, essa semana foi sinal de esperança para “uma vida plena e não apenas uma vida de sobrevivência”.

Os povos indígenas totalizam 5% da população mundial, mas eles representam 15% da camada mais pobre do mundo. Para firmar compromisso real dos representantes de Estados-membros a fim de mudar esta realidade inaceitável, o presidente da Assembleia Geral da ONU, Sam Kutesa, convocou os representantes a “cumprirem com o seu papel de levar o debate adiante”. E a nossa Amazônia tem o dever de lutar para acordar o Gigante adormecido a assumir o papel que a natureza lhe reservou de maior país amazônico do mundo. O que só poderá ocorrer mediante o respeito aos direitos humanos indígenas e o desenvolvimento sustentável da Criaturada grande.


A EXPERIÊNCIA DO MATO GROSSO

Na busca dessa utopia, que é a inclusão do tempo pré-colombiano na história do Brasil e o progresso socioambiental das populações tradicionais marginalizadas pela colonização; em 2001 teve início no Estado do Mato Grosso o Projeto de Formação de Professores Indígenas - 3º Grau Indígena, hoje são oferecidos cursos superiores de licenciatura nas áreas de Línguas, Artes e Literaturas; Ciências Matemáticas e da Natureza; e Ciências Sociais.

Em 1995 foi criado o Conselho de Educação Escolar Indígena - CEI/MT, que se constituiu num espaço de discussão, reflexão e luta pela Educação Escolar Indígena. A criação do CEI/MT fortaleceu em Mato Grosso o movimento dos professores indígenas, que passaram a reivindicar a formação continuada por meio de cursos específicos e diferenciados.

Em 1997, após a conferência Ameríndia, foi criado pelo Governo do Estado a Comissão Interinstitucional e Paritária que iniciou discussões sobre a formação de professores indígenas em nível superior. A Comissão era constituída por representantes das instituições e representantes indígenas. Já no ano de 1998, a Comissão elaborou projeto para formação em nível superior, estabelecendo diretrizes gerais da proposta.

O projeto foi concluído no final de 1999, com entrega do documento ao governo estadual e em 2000 foi dedicado a negociações políticas e financeiras com assinatura de convênios entre instituições parceiras e aprovação nos colegiados da Universidade do Estado de Mato Grosso. Desta maneira, o Projeto 3º Grau Indígena foi transformado no Programa de Educação Superior Indígena Intercultural - PROESI. Em janeiro de 2008 iniciaram-se as aulas e durante o II Congresso Universitário da UNEMAT, realizado em dezembro de 2008, foi aprovada criação da Faculdade Indígena Intercultural, incorporando as ações relacionadas a Educação Superior Indígena.

A Faculdade tem por objetivo execução de cursos de licenciaturas plena e de bacharelado, com vistas à formação em serviço e continuada de professores e profissionais indígenas; abertura de vagas nos cursos regulares de Pós-Graduação Lato Sensu e Stricto Sensu; cursos de formação continuada, acompanhamento de acadêmicos indígenas nos cursos de graduação e administração do Museu Indígena a ser implantado.





Paulinia cupana - Guaraná.







Nenhum comentário:

Postar um comentário