quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sentado na beira do Caminho da Anta a ver estrelas e escutar o pulsar da Terra.

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Victoria amazonica (Vitória-régia), ninfeácea do bioma amazônico como outras plantas aquáticas da mesma família da espécie do Lotus na Índia, Grécia, Egito, China e Japão inspirou o espírito humano a conceber lendas e crenças do que se pode dizer ecocultura.



"Há tantas auroras que não brilharam ainda" Rig-Veda.

Dizemos nós, na astronomia de nossos antepassados índios, que a Via Láctea é o Caminho da Anta e os pretos velhos africanos ensinam que o Caminho de Santiago dos homens brancos é, sim, Caminho das Estrelas... O grande Espírito fala de diversos modos aos homens. Na beira do rio de Heráclito a gente vê o tempo passar e percebe que nossa casa comum é o planeta Terra e a história da Terra é a nossa história. 

Por isto, em qualquer pedacinho de terra toda consciência se forma a partir da profunda inconsciência do ser que busca saber quem ele mesmo é, donde veio e a onde vai: a busca começa e acaba no seio da mãe Natureza. A arqueologia das ideias e a psicanálise da história são partes conjuntas da autodescoberta de cada um de nós e do mundo em que vivemos.

A humanidade filha da animalidade (segundo Edgar Morin) é a grande mãe de cada um e de todos no seio da Biosfera, esta escreveu a história natural como primeiro capítulo da evolução da vida orgânica que vai parir a Noosfera prenhe de desafios e mistérios. Donde emanam a diversidade das culturas e as diferentes ciências. Biomas e regiões culturais, em toda complexidade, formam o tecido vivo e a inteligência coletiva da Terra.

O homem nativo das diferentes regiões da Terra é, sem dúvida, o primeiro intérprete desta parte fundamental da Humanidade da terra. Utopia eterna. Todos povos da Terra merecem respeito e consideração em sua terra ancestral por todos mais habitantes do mundo. Se matarmos os últimos nativos da Terra original a humanidade não terá mais passado nem futuro. 

Por isto, a última fronteira da Terra - Amazônia - da primitiva diáspora iniciada na África ancestral deve ser considerada florão da América do Sol, coração pulsante da Terra na soberania democrática dos povos amazônicos da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru, Guiana, Guiana francesa, Suriname e Venezuela. Os indivíduos amazônidas, natos ou adotivos, devem se bater em defesa desta singular região da Terra e não mergulhar em estúpida indiferença e até juntar-se a seus devastadores e exploradores inconsequentes.

Não existe 'uma' alma ou avatar único do nosso planeta. Cada um de nós, dotados de razão e consciência conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela assembléia-geral das Nações Unidas; concretamente somos o Planeta interligado de muitas e diversas mentes conectadas pela rede neuronal, no presente, algo como 7 bilhões de cérebros basicamente semelhantes, mas não iguais...  A diversidade é a coisa mais impressionante da vida!

Na diversidade de vidas e culturas dos biomas do planeta, urge compreender e preservar crenças e tradições do mundo inteiro. O diálogo para a paz e o desenvolvimento humano passa pelo respeito às crenças e religiões dos outros. Significa dizer que ainda é preciso descolonizar o mundo em todas suas partes. Na Amazônia brasileira, o primeiro passo para a descolonização cultural total e final é reconhecer a Pajelança e as religiões afro-amazônicas como patrimônio imaterial brasileiro. Nós, os agnósticos e ateus devemos ser os primeiros a defender a liberdade de pensamento e expressão a todos e a todas.

Para isto, os estudos amazônicos precisam ensinar sobre os Encantados da Amazônia; espíritos da natureza; se não com intenção de proselitismo religioso, mas como disciplina de esclarecimento das Ciências Sociais em combate ao preconceito e ao ódio étnico. Divulgar mais a cultura popular, como na pesca tradicional do Salgado onde se acredita que os encantados se manifestam em figura de bicho. Entretanto, dizem os pescadores, é gente do fundo, um ser encantado que habita os rios e igarapés.

Posso não acreditar numa única lenda ou relato milagroso, mas defenderei o direito de quem acredita e o patrimônio maravilhoso dos mitos e sonhos da humanidade sem os quais não existiria arte e poesia nenhuma capaz de converter os horrores da vida e da morte no belo, justo e útil no mundo.

Eu me assumo caboco, "saído do mato", do tupi caa (vegetal, planta, floresta) e bok (extraído, tirado, saído) o mesmo que caboclo; uma variedade periférica da velha e vaidosa espécie humana auto-classificada "Sábia", que por curiosa estranheza e similitude o sábio naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, à vista de uma grotesca cabeça de índio degolado em guerra entre nações indígenas inimigas; classificou ligeiramente como "Homo sapiens var. Tapuya" (Viagem Philosophica, 1783-1792). 

Aprendiz de pajé, reprovado por falta de fé, eu descasco meu carma em busca de mim mesmo pela decifração do mito amazônico da primeira noite do mundo. Quer dizer, como toda criaturas formada do encontro biológico entre dois gametas, masculino e feminino; nascemos na escuridão do tempo para vir a luz criar consciência em relação dialética com os outros. Da profunda ignorância passando pelo mito para a realidade da vida, procuro saber quem inventou o mundo e o mais antigo morador destas nossas paragens. 

Então, ainda eu era criança é já tive notícia por leitura soletrada da revista Chácaras e Quintais de meu avô de um tal "Homem da Lagoa Santa", como foi batizado aquele fóssil humano que ajudou a reescrever importante período da história natural brasileira. Coisa fantástica, os achados sugeriam à criança homens primitivos vivendo no mesmo cenário de preguiças e tatus gigantes que se acreditavam extintos quando surgiram as populações humanas. 

A teoria do dinamarquês Peter Lund só seria confirmada mais de um século depois, em 2002, com base em análises de datação das ossadas. Para ele, que findou seus dias e enterrou seus ossos em Lagoa Santa em 1880, nunca restaram dúvidas, considerado hoje pai da paleontologia brasileira. Todavia, a mais extraordinária notícia da Lagoa Santa ainda estava por vir, graças à Genética; provando que nossa avozinha África, além de compartilhar a Pangeia com a América, na era Paleozoica há 200 ou 540 milhões de anos, foi lugar de partida da família brasileira de Lagoa Santa, que passou antes no sul da China e Sudeste Asiático tomando rumo de Papua-Nova Guiné e Austrália. Todo este vasto mundo sob o Cruzeiro do Sul. A mesma constelação, chamada Arapari, pelos índios aruaques que migraram do Caribe para a terra firme.

Mesmo depois da passagem de Peter Lund por Lagoa Santa no século 19, a região guardava grandes surpresas. De lá para cá, foram extraídos restos de aproximadamente 250 esqueletos humanos. Na década de 1970 foi encontrado um crânio feminino de cerca de 11.500 anos.A descoberta mostrou que a região já era habitada muito antes que se imaginava, e pôs em xeque as teorias até então mais aceitas sobre o povoamento do homem nas Américas. 

Em 1998, técnicas de reconstituição permitiram ver o rosto da jovem mulher de Lagoa Santa. Tinha ela, aproximadamente, 20 anos de idade, olhos arredondados, nariz largo. Foi batizada de Luzia como referência à famosa Lucy, fóssil de mais de 3 milhões de anos encontrado na Tanzânia em 1974, então Luzia é considerada a primeira brasileira. A reconstituição da sua face lembra os aborígenes da Austrália e negros da África. 

A descoberta deu força à hipótese, até então polêmica, de que o Novo Mundo tenha sido ocupado por diversas correntes migratórias, vindas inclusive por terra na última Idade do Gelo, durante a baixa do nível dos mares. Os parentes próximos de Luzia teriam habitado o sul da China e sudeste da Ásia e migrado para a América e para a Oceania há cerca de 11 mil anos. E a busca das origens do homem americano não pararam por aí. No México, foram descobertas pegadas de gente que podem ter 40 mil anos. Outros vestígios no sítio arqueológico da Serra da Capivara, no Piauí, podem remontar a 60 mil anos.

E a gente marajoara despossuída das terras ancestrais de seus antepassados e de identidade, não sabe para que serve um museu como aquele incrível invento do padre Giovanni Gallo e, por ser em grande maioria pobre e analfabeta de pai e mãe; nem imagina que a arqueóloga gaúcha Denise Schaan, autora da obra de divulgação Cultura Marajoara além de vários trabalhos de pesquisa científica; veio lá do extremo-sul brasileiro ouvir o que os tesos arqueológicos da ilha do Marajó tinha a dizer ao Brasil e ao mundo... Ela continuou um trabalho cujos inícios ficaram nos fins do século XIX, porém a destruição além do desapreço das intempéries e do pisoteio dos rebanhos, data dos começos das fazendas de gado após 1680.

Ao modo dos pajés da Amazônia tento, desde que me entendo por gente - menino jito do Fim do Mundo, na vila Itaguari, ilha do Marajó, há 79 anos, seis meses e 19 dias até este "Dia do Índio" do ano de 2007, dar conta do recado da Criaturada grande de Dalcídio. Esta gente teria chegado há uns cinco mil anos, mais ou menso, nas terras baixas da América do Sul: grupos nômades descendentes dos primeiros habitantes do continente há cerca de dez mil anos atrás, vindos da Ásia através de longo percurso por milhares de anos desde o sul da África mãe da humanidade filha da animalidade (apud Edgar Morin; nossos antepassados começaram a chegar a este continente, o qual seus descendentes chamados mayas batizaram de Amerik, o "pais do vento"; referindo-se à região de montanhas de entorno do lago Nicarágua. 

O homem "vermelho" americano, originalmente "amarelo" no Extremo Oriente, era "preto" desde seu nascimento entre fezes e urina da bicharada pré-hominídeas; há coisa pra lá de um milhão de anos! A antropologia americana admite diante de evidências de Lagoa Santa, Minas Gerais; 

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Thiago de Mello Poeta da Floresta

"Agora sei quem sou. Sou pouco, mas sei muito, porque sei o poder imenso que morava comigo, mas adormecido como um peixe grande no fundo escuro e silencioso do rio e que hoje é como uma árvore plantada bem alta no meio da minha vida." Thiago de Mello


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Dalcidio Jurandir Romancista da Amazônia

NATAL
Deixei as ovelhas,
deixei a flauta,
e só vim com o meu cajado
e com a minha bíblica inocência
(quanto era bela a minha adolescência).
E corria e corria pelos prados…
Uma estrela muito branca
me orientava,
uma estrela tão grande!
Depus meu cajado
e ajoelhei-me junto do berço,
pensando que esse menino,
pastor de estrelas, noutro tempo,
viesse pastorear comigo
pelos campos,
ser feliz como eu era,
entre as ovelhas!
Dalcidio Jurandir



TODOS NÓS NA ENCANTARIA DA MÃE TERRA:
Somos fortes, felizes, realizados e ricos.

mas...

"A ignorância é a noite da mente" (Confúcio, 551 - 478 a.C).

"Minha primeira escola é a família; meu primeiro mestre é a criança que fui
 Adalberto Barreto (“BARRETO, 2008, 101)

Peixe no prato e farinha na cuia, Aleluia! 

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