quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

SUMANOS CABANOS: 180 JANEIROS EM LUTA PELA CIDADANIA DO POVO DO GRANDE PARÁ.


O PARÁ SENTINELA DO NORTE (1835-1836), O POVO NO PODER.




CAMINHOS DA HISTÓRIA DO BRAVO POVO BRASILEIRO NA FRONTEIRA NORTE


Estamos apenas a um ano dos já badalados 400 anos de Belém do Grão-Pará. Como de costume, o povo assistirá bestificado à pletora de discursos e festividades laudatórias aos nossos antigos colonizadores e -- como sempre -- os paraenses originais, ditos "índios" como se não fossem ninguém, não serão lembrados a não para bater palmas e fazer cenário às autoridades e seus grandes convidados oficiais. 

Na festa Paris n'América dos 400 Anos ninguém vai dar pela falta dos negros com corda e baraço arrancados do seio da mãe África para vir derrubar mata virgem, cavar a terra bruta, queimar coivaras medonhas e plantar cana dos engenhos de açúcar moreno e aguardente. Nenhuma lembrança dos indesejáveis lusitanos filhos de Viriato, degredados e deportados da velha Europa por ser inconvenientes ao domínio romanizado da imperial aliança entre o Trono e o Altar; mandados os infelizes para cá a fim de clarear a raça inferior dos nativos e pretos. Sequer haverá um pífio pensamento de gratidão aos pobres casais dos Açores enganados com falsa promessa do paraíso na conquista do antigo Maranhão, que ainda se achava em odor selvagem, e os imigrantes deram a prole ultramarina da nossa nobreza brancarana papa chibé. 

Nossa honorável intelligentsia mantém ainda, depois de 'tonto' tempo; nota zero de admiração aos libertos engajados na luta da Abolição da escravatura, importada do Haiti através de Caiena ocupada (1809-1817) por tropas crioulas paraenses sob comando anglo-português, de regresso ao Pará. Pouco se há de falar da mestiçagem dos brancos que aqui adotaram pátria nova no berço de um novo povo, sob o sol do equador, através da mistura fina física, espiritual e cultural com negros e indígenas que, juntos e misturados, deram origem ao genuíno "parauara".

Pois é disto que se trata na Cabanagem geral desde os primórdios da revolta dos Tupinambás de Cabelo de Velha e Pacamão, em 1619, no Maranhão e Grão-Pará até ultimamente, na integração da Pátria grande latino-americana rumo ao futuro dos povos libertados do colonialismo acidental.


No fim da longa história da exploração do Homem pelo homem, quem somos nós de fato, os Paraenses? De que lado da História nós jogamos? Donde viemos e onde iremos agora em meio ao desnorteio global do século XXI?  

Esta é a Cabanagem que nos interessa para além do rancor e da dor na memória dos mortos do passados e pesadelo do apartheid social presente, onde se debatem os marginalizados e humilhados da ufana 7ª maior economia do mundo egoísta e desigual. Doravante, o que mais nos interessa é a justiça social e a paz a fim de superar todo inútil pensamento de vingança, animados pelo desenvolvimento solidário dos povos da África e da América Latina com redobrada fé no progresso dos Direitos Humanos Universais.

Não, não digam a seus filhos e netos que a Cabanagem se acabou no passado perdido, miseravelmente, com 40 mil mortos dentre escassa população de 100 mil almas nos idos de 1840. Desarticulada em meio a uma anistia de mentira e cheia de falsidades historiográficas, negada de pronto pelo relançamento do trabalho escravo oficial, do chamado "Corpo de Trabalhadores", recrutado manu militare.


Sim, o liberal paraense Bernardo de Souza Franco deve ser lembrado como pacificador do Pará. Todavia, o conluio neocolonial anglo-português da "data magna" de 15 de agosto ainda lança sombras sobre o destino manifesto do grande Estado do Pará, do Brasil sentinela do Norte. Foi lá, no Palácio do Governo [Palácio Lauro Sodré, atual Museu Histórico do Estado Pará], que o movimento paraense de 14 de Abril para Adesão à Independência do Brasil foi miseravelmente traído.

A tragédia do Brigue Palhaço, a mortandade de parte a parte, o genocídio cabano, a palhaçada traiçoeira do agente imperial inglês e a covardia dos coloniais portugueses; seriam evitados se o Rio de Janeiro conhecesse o verdadeiro Brasil do Oiapoque ao Chuí... Ou seja, se em vez da corte carioca mandar seus esbirros para oprimir e reprimir, houvesse confiado o governo das províncias a súditos naturais das mesmas regiões, como o caso do paraense Bernardo de Souza Franco, instruídos mais a ouvir o povo do que para reinar sobre ele.

É falsa a versão historiográfica plantada pelo império brasileiro de que o povo paraense queria se separar do Brasil. Pelo contrário, os mais antigos paraenses nativos vieram das ilhas do Caribe em busca da Terra Firme (continente) guiados pelo Arapari (consteleação do Cruzeiro do Sul). O presidente cabano Eduardo Angelim Nogueira repeliu abordagem inglesa, no caso do navio inglês Clio aprisionado pelos cabanos de Salinas com carregamento de armas e munição; típico do comércio das revoluções colônias, com que a pérfida Londres negociava com ambos lados para tirar máximo proveito do conflito. Também não seria difícil aos irmãos João Miguel e Germano Aranha, em contato com os Estados Unidos da América, obter apoio à independência da Amazônia, antecipando assim a república dos Estados Unidos do Brasil a começar pelo Cabo Norte.

Qual foi, então, o verdadeiro problema da Cabanagem paraense em relação ao império do Rio de Janeiro para ser  radicalmente votada ao extermínio? Enquanto, na contemporânea Farroupilha, a separatista República Rio-Grandense mereceu tratamento político e militar diferenciado possibilitando a reconciliação com menos traumas. 

Sabemos que o Império, com seu quartel-general na ilha de Tatuoca; não aceitou jamais negociar com as "classes infames" do Pará, filhas dos "Ajuricabas e Ingaíbas" como reza o proclama de Angelim proferido no átrio da igreja de São João Batista, na Vila do Conde donde mais tarde nasceria a Vila dos Cabanos; segundo o historiador oficial da Cabanagem, Domingos Antonio Raiol; convocando combatentes ao fulminante ataque a Belém.

Era, sem dúvida, o medo colonial duma região-chave da América do Sul, desconhecida, imensa, vista como inóspita e selvagem; que precisava aos olhos imperiais ser "esvaziada" de bárbaros para dar lugar a colonos confiáveis ao poder civilizador. A vizinhança das Guianas inglesa, holandesa e francesa era um perigo permanente. Numa palavra, o grande medo geográfico dos Trópicos na faixa equatorial onde mais carecia a escravidão do índio, depois do negro e por fim de seus descendentes tapuios, mamelucos, curibocas, cafuzos, mulatos, brancaranas, pardos e todas mais nuances racistas da inferioridade "racial" que habita a alma da colonialidade europeizante.

Esse grande medo e estranhamento do Brasil bandeirante a respeito do Norte e Nordeste ainda dificulta a plena integração nacional e promove a recolonização da Amazônia. Até hoje, a verdadeira data maior da Adesão do Pará à Independência se refere à Proclamação de Muaná, na Ilha do Marajó, em 23 de Maio de 1823. Pálida memória local desfocada do calendário cívico estadual ignorado pelo panteão nacional. Quem quer saber? Nem os descendentes dos "Ajuricabas e Ingaíbas" (nheengaíbas)...

Mas será preciso recuperar a verdade histórica para triunfo da reconciliação política com justiça e paz social. Dar lugar de destaque que a brava nação Tupinambá merece na invenção da Amazônia, sem a qual não se levantaria sequer a rústica paliçada chamada Forte do Presépio; levantar a ancestralidade da Cultura Marajoara prenhe de migrações antigas das Guianas além Oiapoque: com que se reafirma, a toda prova, nosso velho Porto Caribe muito antes de Colombo.

Consolidar, enfim, a fratura histórica exposta na arquitetura concreta de Niemeyer, no memorial da Cabanagem. Que o Museu Histórico do Estado do Pará (MHEP) venha a ser incorporado amanhã à Universidade do Estado do Pará (UEPA) e com o museu histórico o Palácio Cabanagem, inclusive, que após mudança da Assembleia Legislativa do Estado para suas futuras instalações, dará lugar a grande centro universitário de estudos da Amazônia sob todos aspectos desde o passado remoto até o próximo futuro desta singular região brasileira e sul-americana.



entre chuvas e esquecimento, que nem os abandonados sítios arqueológicos da milenar Cultura Marajoara -- primeira ecocivilização amazônica --, o Memorial da Cabanagem resiste ao tempo e à indiferença das classes dominantes do País. No entanto, como valente sentinela na guarita do Norte, o 'Dedo Decepado da História' acusa a elite brasileira no tribunal da consciência nacional.  Não importa se foi ou ainda será horrível demais a repressão imperial: a vitória popular é certa. A luta continua, agora, nas etapas elevadas da conquista democrática da participação popular em demanda dos frutos da sociedade a que a brava gente faz direito.

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