terça-feira, 1 de novembro de 2011

CASA DO HOMEM MARAJOARA: UM LUGAR PARA TODOS

Como seria o Marajó se todos remassem no mesmo rumo?

Um projeto de desenvolvimento cultural conforme leitura das obras “Marajó, a ditadura da água”, “Motivos Ornamentais de Cerâmica Marajoara” e a autobiografia “O homem que implodiu”, de autoria de Giovanni Gallo, como sugestão para implementar plataforma federativa de amparo a atividades culturais da comunidade marajoara de municípios, com sede em Belém, a ser denominada “Casa do Homem Marajoara”.
   


   Muitos compartilham justa preocupação a respeito da questão marajoara e destes, algumas vezes, destacam-se voluntários prontos a fazer alguma coisa, não raro sensibilizados pela leitura de Dalcídio Jurandir e de Giovanni Gallo conjuntamente, abnegados lutadores até seus últimos dias de vida para soerguer a brava gente marajoara. Especialmente, no caso do criador do Museu do Marajó, combater a destruição fatal dos sítios arqueológicos mediante educação para a valorização da Cultura Marajoara.

A importância de Dalcídio Jurandir para o desenvolvimento humano e sócio-econômico da “criaturada grande” nas ilhas e subúrbios de Belém do Pará parece ser um realejo que não pára de tocar. Todavia, quando se procura pelos meios que deveriam colocar em prática esta formidável pregação nos damos conta de mil e uma dificuldades, quando não descaso das autoridades responsáveis e insensibilidade da própria sociedade, o que descamba até para o escárnio de uma situação dramática e paradoxal que acusa mesmo o sistema nacional de cultura. O silêncio do Senado e Câmara dos Deputados sobre a questão é revelador.

O paradoxo do “maior arquipélago fluviomarinho do mundo” avulta face à letra morta do Parágrafo 2º, VI, do Artigo 13 da Constituição do Estado do Pará; colocado no texto constitucional como “jabuti” diante do arreganho de um projeto federal de penitenciária de segurança máxima, quase ao mesmo tempo em que o governo federal pretendeu depositar lixo atômico em Jacareacanga. Em nome do Povo, os nobres representantes fazendo do voto popular um cheque em branco, vão botando jabutis aqui e acolá, conforme a conveniência da oligarquia paraense não importa o partido que estiver no governo estadual e nos municípios.

Na contramão, entretanto, aparecem os indignados confrades de Dalcídio e Gallo a fazer a leitura que o próprio povo faria se tivesse educação e capacitação suficientes. Por exemplo, o dispositivo citado (“Art 13, VI,§ 2º. O arquipélago do Marajó é considerado área de proteção ambiental do Pará, devendo o Estado levar em consideração a vocação econômica da região, ao tomar decisões com vista ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara”).

Noves fora o jabuti da APA-Marajó, bastaria a finalidade enunciada para determinar uma política de desenvolvimento territorial tendo em vista “a vocação econômica da região” em face “das condições de vida da gente marajoara”. Um poema digno de marquetingue de primeiro mundo, em contraste com a realidade de terceiro mundo. E lá se foram mais de vinte anos prontos para o lixo da história...

E, como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade, Dalcídio Jurandir já morreu... Chove sobre as ruínas edílicas da casa do escritor do extremo-norte e os tesos arqueológicos no desterro ao deus dará, tal como cai o dilúvio em cima da singela campa de Giovanni Gallo, à guisa de um sítio de camutins, em Cachoeira do Arari. Lutando contra a ditadura das águas e a insensibilidade dos homens, às vezes mais do que a animalidade dos búfalos, o padre insubmisso deixou um legado a seus verdadeiros herdeiros – os cabocos, Criaturada grande de Dalcídio – no qual explicita: o que o Marajó precisa é de um “plano de desenvolvimento cultural”...

Como então, cultural? A pobre gente pensa que cultura é só festividade. Que o trabalho é outra coisa, murrada e castigo por culpa de Adão e Eva. Melhor seria, à vista da Conferência Rio+20, falar já em ecocultura, e proclamar sim que a Cultura marajoara é, sem nenhum favor, a primeira ecocivilização da Amazônia... Mas quem vai dizer isto pela gente de mísero IDH? Na verdade, com exceção do governo do PT no Pará (2007-2010), aos mais governos o supracitado parágrafo foi letra morta; fizeram ouvido de mercador à moção de Muaná de 08/10/2003 pedindo que a APA-Marajó seja preparada para candidatura como reserva da biosfera, reconhecida como tal pela UNESCO, dentro do programa MaB (O Homem e a Biosfera).

Por que não te calas?

Se a gente calasse a Academia do Peixe Frito para sempre – boca maldita – no Ver O Peso a Pedra falaria por todos nós...  Enquanto cidadão brasileiro natural da ilha do Marajó, descendente de imigrantes que lá chegaram há mais de um século ou de indígenas marajoaras que se mesclaram no processo colonizador da Amazônia, tenho feito o possível para sensibilizar uns e outros na teimosa tentativa de fazer amigos da causa marajoara. Com testemunho de meus dois livrinhos (esgotados, sobretudo devido à pequena tiragem de três mil exemplares cada) a “Novíssima Viagem Filosófica” e “Amazônia latina e a terra sem mal”, concluídos com o último ensaio denominado “Amazônia Marajoara” numa trilogia diletante que sonda a amazonidade a fundo e critica usos e costumes de nossa acomodada sociedade regional.

    Desta quixotada danada, lembro minha derradeira passagem na Prefeitura de Ponta de Pedras e na Associação de Municípios do Arquipélago do Marajó (AMAM) (cedido então pelo Ministério das Relações Exteriores) quando com Giovanni Gallo (pelo Museu do Marajó), o arqueólogo Marcos Magalhães (representando o Museu Goeldi), professor Ricardo Barros( coordenador do campus Marajó/UFPA) e o arquiteto Paulo Chaves (superintendente do IPHAN na época) com cerca de cinqüenta prefeitos e vereadores marajoaras coordenados pela AMAM a convite do governo francês local com assistência do Consulado Brasileiro, fomos em delegação a Guiana francesa colaborar no intercâmbio de fronteiras e melhorar a imagem brasileira além Oiapoque, denegrida pelo contrabando contumaz, imigração clandestina e outras velhas mazelas que dificultam a integração com as Guianas e Caribe, no ano de 1994.

Embora a maior parte da delegação marajoara não tenha entendido o motivo pelo qual foi convidada a conhecer “in loco” a Amazônia de além Oiapoque. Fronteira Brasil-França ou Mercosul União Européia se pensarmos melhor, o então presidente do departamento francês e prefeito da municipalidade de Sinnamary, senhor Elie Castor, já falecido; convidou imediatamente a Giovanni Gallo para replicar em Sinnamary o criativo modelo de ecomuseu inventado, avant la lettre em Santa Cruz do Arari à margem do lago que foi berço da Cultura Marajoara de 1500 anos de idade.

Fui um modesto repórter do extinto “Jornal do Dia”, de Belém do Pará, e estimulado por esse pequeno papel jornalístico acabei me informando bastante sobre a marginalidade e complexidade das colônias na América Latina. O contrabando das Guianas, ao contrário do que se pensa, não começou nos anos 60 nem apenas os brasileiros são contraventores. Belém ou Macapá não estão menos distantes da faixa de fronteiras do que Brasília e Paris... Nem a cultura de fronteiras se localiza exclusivamente junto à linha de limites internacionais... Quando o Consulado do Brasil em Caiena precisou de servidor com conhecimento de fronteiras eu estava em Brasília e exercia função administrativa na Divisão de Fronteiras. Com a temporada de cinco anos como vice-cônsul na Guiana francesa comulativa às Antilhas francesas (Martinica, Guadalupe e San Martin) pude compreender melhor o outro lado da questão e perceber que Marajó através do Amapá está metido no assunto até o pescoço. Pela simples razão de que as populações locais de ambos lados da fronteira, desde o Caribe até o Acre, são como carne e unha muito antes da chegada de Cristóvão Colombo.

Quem melhor que os museus comunitários para saber disto e promover um verdadeiro diálogo de culturas de fronteira num espaço-arquipélago cada vez mais cobiçado e fragmentado? Pensando na necessidade da integração solidária da América Latina temos hoje rede museulógica pan-amazônica. Foi desejando algo como isto que a proposta da comuna de Sinnamary chegou até a associação de prefeitos do Marajó com convite para visitar a Guiana Francesa. Já decorreram 17 anos até o primeiro lançamento de satélites do projeto russo-alemão Soyus, que acaba de acontecer a partir da base de Sinnamary anexa a Kuru, base do projeto Ariane.

A abertura ultramarina da França sobre o norte do Brasil começou com o governo do primeiro-ministro Michel Rocard, amigo pessoal do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes: este fato iria favorecer a cooperação região entre o Amapá e a Guiana Francesa, estimulada pela Fundação Danielle Miterrand, durante o governo de João Capiberibe. Beneficiando-se de tal abertura transfronteiriça, a comuna de Sinnamary mandou uma primeira delegação em Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari. Haveria outra, de natureza estudantil conduzida por Robert Marigard a Ponta de Pedras após a viagem de prefeitos e vereadores do Marajó àquela região ultramarina.

Diálogos entre culturas de fronteira

Em primeiro lugar é preciso notar que das fronteiras que nós estamos tratando, incluem as fronteiras políticas internacionais propriamente ditas. Mas vão muito além, para chegar às divisões sociais e culturais dentro de uma mesma cidade ou município: o Ver o Peso, por exemplo, é uma referência notável disto que estamos abordando. Creio que não é absurdo o conceito de “cultura de fronteiras” atinente à complexidade das regiões do Pará, Guianas e Caribe, espelhadas inclusive na dicotomia urbano-rural, natural-industrial... Recordo, ademais, que a inovadora modalidade de ecomuseu é criação francesa dos anos de 1970, na onda ecologista e que irá culminar, com certeza, culminar em 2012 na Rio+20.

O nosso “Museu do Marajó” data de 1972, nascido – por necessidade e acaso - com todos atributos museulógicos referidos pelo pioneiro Hugues de Varine [vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecomuseu ] especialista que conhece nossa cidade e orientou com o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)a formação do “Ecomuseu da Amazônia”, em Outeiro. O corredor da biodiversidade do Amapá ligando-se a Belém através de futura reserva da biosfera Marajó-Amazônia, como já se debatia em Caiena nos anos de 1980, projeta uma “ponte” maior podendo ir de Belém a Caracas através da “grande oval insular das Guianas” (Raja Gabaglia, Elisée Reclus e Ciro Flamarion Cardoso).

    Sob meu ponto de vista, alguns passos deveriam ser dados no sentido investimentos na cultura dos 16 municípios do Marajó, numa abordagem integrada pela transversalidade da educação e da cultura tanto quanto possível:

    I – a noção básica do território federativo (União, Estado, Municípios) mais comunidade marajoara local e na Capital reforçada de rede de amigos nos estados e exterior em relação às mais regiões para integração solidária do Estado do Pará como um todo. Em suma, a primazia do Marajó se justifica não só pela cultura pré-colombiana anterior à Tapajônica e Maracá ou pela biodiversidade e diversidade cultural da Amazônia Marajoara, mas também pelo fato geopolítico importante de se localizar no maior delta-estuário do planeta interligado a duas capitais estaduais nas duas margens do Rio-Mar.

    II – uma releitura política atualizada do dispositivo constitucional considerando o arquipélago do Marajó como área de proteção ambiental (§2º,VI, Art. 13) servirá de base para candidatura como reserva da biosfera (ver projeto na SEMA) chave para o conceito de proteção ambiental adotado pela UNESCO – zerando o contencioso e incompreensões do passado, abrindo passagem ao próximo futuro, com exemplo da Conferência Rio+20 e sua oportunidade para boa imagem paraense -, chance de exaltar a primazia da Cultura Marajoara como inspiradora da ‘ecocivilização’ da Amazônia(cf. Ignacy Sachs, Anna Roosevelt, Denise Schaan e outros).

III - tal releitura conecta Natureza, Cultura e Turismo como eixo do novo paradigma de desenvolvimento regional: Marajó se impõe como potencial para vir a ser a “Costa Rica” paraense na vanguarda de um ecoturismo e empreendedorismo verde em todas linhas produtivas. Onde a cultura se apresenta como mais valia de marquetingue inteligente e turismo se engaja como caixeiro-viajante integrando grandes empresas e economia solidária, com exemplo já em andamento do programa VIVA MARAJÓ com apoio do Fundo Vale.

    O Pará “obra-prima” da Amazônia, inegavelmente, tem no Marajó a jóia da coroa: apesar da malária, do baixo IDH e todas outras misérias. Porém a gema precisa ser revelada, transformada e burilada tal qual a brilhante alquimia de São José Liberto: metamorfose daquele famigerado presídio, onde Dalcídio Jurandir e seus camaradas contra o fascismo pegaram cadeia por crime político em companhia de inocentes ou culpados de roubo de gado dentre outros meliantes mais perigosos.

    São José Liberto é modelar para libertação da “Criaturada grande de Dalcídio” e o desenvolvimento cultural sonhado pelo visionário inventor do Museu do Marajó. Publicar em parceria com a Casa de Rui Barbosa a correspondência de Dalcídio Jurandir e Maria de Belém Menezes, onde se comprova o incentivo do escritor ao padre da vila de Jenipapo, repórter por acaso, em publicar o indispensável “Marajó, a ditadura da água”.

Com tais inspirações em mente, o Pará poderia tomar atitude histórica desde o governo provincial do Barão do Marajó; no sentido de promover por via diplomática adequada em cooperação com a UNESCO o repatriamento peças e coleções de cerâmica marajoara dispersas em museus nacionais e estrangeiros, de tal maneira que estas instituições venham a ser parceiras numa obra de revitalização regional periférica sem precedente nas relações Norte-Sul [ver link http://gentemarajoara.blogspot.com/2011/03/volta-de-patrimonio-cultural-seu-lugar.html].

   
Acredito que, de nenhuma maneira, não será preciso declarar “guerra”, mas sim fazer a paz para melhoria de todos. Deste modo, algo debver ser feito no sentido de:

1) um decreto declaratório da Cultura Marajoara na condição de patrimônio imaterial e símbolo oficial do Estado do Pará, adotando-se outrossim a data de 20 de Novembro como DIA DA CULTURA MARAJOARA (achado do teso do Pacoval pelo inspetor Florentino da Silveira Frade, segundo o naturalista Alexandre Ferreira Rodrigues): isoladamente, este ou outro ato dentro da mesma filosofia, não terá maior importância do que a supracitada determinação da Constituição do Estado do Pará esquecido há mais de vinte anos. Entretanto, levado a efeito como manifesta vontade política, na perspectiva de um projeto integrado de desenvolvimento da paisagem cultural Belém-Marajó, o povo paraense verá na iniciativa a força do despertar duma autêntica renascença civilizatória para o século 21;


2) a pergunta que não quer calar: se o Governo do Pará faz ouvido de mercador, como os paraenses podem criticar o silêncio e a distância do Governo Federal e da cooperação internacional às queixas dos marajoaras? Veja aí, por exemplo, que desde o exército brancaleone que se chamava GDM (Grupo em Defesa do Marajó) não deixamos de importunar autoridades e personalidades nacionais. Ver http://academiaveropeso.blogspot.com/2010/12/introducao-amazonia-marajoara.html.

3) promover tradução e difusão dos livros de Giovanni Gallo em conjunto com a obra de Denise Schaan, resalvada a competência acadêmica e comunitária de cada; visando a captar recursos públicos e privados para criação de instituição em parceria público-privada, destinada a atuar em sintonia com o Sistema Integrado de Museus (SIM) na reconstrução da casa-museu de Dalcídio Jurandir e amparo ao “Museu do Marajó”, em Cachoeira do Arari, de modo que tais equipamentos constituam pólo gestor de sub-sistema específico para os municípios do Marajó.
   
4) deste modo, tal entidade deveria estabelecer sede em Belém, onde estabelecer convênio com a Associação de Municípios do Arquipélago do Marajó(AMAM) e Pólo Joalheiro/ Museu de Gemas São José Liberto para integrar culturalmente os municípios marajoaras.

5) estudo específico poderia contemplar construção de anexo ou adaptar espaço do Pólo São José Liberto para abrigar exposições do sub-sistema servindo não apenas ao Museu do Marajó (MdM) e casa-museu Dalcídio Jurandir, de Cachoeira do Arari; mas também a todos mais municípios;

6) com a sugestão o ideal de um “ecomuseu” do Homem Marajoara tal plataforma poderia capacitar o Museu do Marajó (MdM), contando com apoio técnico e financeiro do IBRAM, Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e SECULT-PA para receber futuramente cerâmica marajoara repatriada em cooperação internacional supervisionada pela UNESCO; viabilizaria atuação conjunta com o IPHAN em matéria de conservação, pesquisa e aproveitamento ecoturístico de sítios arqueológicos(ver www.marajoara.com ).

    Será isto sonho ou loucura? Como diria Dom Helder Câmara, o sonho de um homem é apenas sonho; mas o sonho de muitos homens é movimento.

 

   
  

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